Em um curso que estou fazendo aprendemos a fazer a ‘escuta ativa’ de partes litigantes usando princípios de psicologia humanista, inspirada em Carl Rogers. Durante a exposição dessa técnica ressaltou-se a necessidade de neutralidade axiomática do ouvinte das partes litigantes, sem julgamentos éticos e/ou morais dos atos narrados, respeitando-se os valores de cada pessoa ou grupo. Em discussão, nesse momento, alguém lembrou do caso dos índios que enterram crianças deficientes vivas.
Logo estabeleceu-se o dissenso: de um lado os que não condenavam os índios que enterravam crianças vivas; eles alegavam que deve-se respeitar os valores dos índios; e na outra ponta os que consideravam o direito a vida como um valor universal. O dissenso se manteve, vários integrantes dos polos opostos se manifestaram e não se chegou a conclusão alguma. Com certeza alguns ficarão com algum tipo de crise cognitiva e outros rejeitarão a abordagem rogeriana como errada.
Eu enxerguei ali um falso dualismo, decorrente de um erro cognitivo chamado de hiper especialização, que Edgar Morin no seu livrinho “Cabeça Bem Feita” denuncia como um dos principais da nossa sociedade: as pessoas transformam seu conhecimento especializado em conhecimento geral da vida, em forma de ver o mundo, em cosmovisão mesmo, em filosofia e sentido geral da existência. Como aconteceu na sala de aula, um método de abordagem de litigantes por escuta ativa logo passa a tratar da moralidade de se matar ou não crianças deficientes.
Ora, isso também é uma contradição da neutralidade alegada: a própria Justiça vai aplicar punições sobre os litigantes ouvidos (na e pela Justiça), punições estacadas em algum valor moral positivado pelos legisladores e interpretado pelos julgadores.
A hiper especialização transforma métodos em religião: alguns, maravilhados em como o método materialista histórico dá certo na abordagem de certos aspectos das relações econômicas (trabalhistas e consumeristas, por exemplo) logo passam a usá-lo para tudo na vida, até em sua vida espiritual. Outros fazem o mesmo com o método psicanalítico. E ontem descobri que também o fazem com a abordagem rogeriana. Isso é decorrência de hiper especialização; é uma bitolagem do entendimento dos chamados “especialistas”. São estritos à sua própria perspectiva especializada de ver o mundo. O estrago acontece quando isso se reflete nas políticas públicas e em influência sobre a opinião pública.
Os métodos podem trazer alguns benefícios laterais mesmo quando erroneamente usados. Mas isso não altera o fato de que darão errado no final e causarão muitos danos e equívocos. Há um verso bíblico, no livro de Isaías (41.6), que diz: “um ao outro ajudou e ao seu companheiro disse: esforça-te“. Vemos nesse texto uma narrativa de companheirismo, esforço em favor do outro e de motivação ao próximo. Coisas que, vistas em si, destacadamente, são boas. No contexto próximo, então, muito boas: eram artesãos que se ajudavam e ensinavam mutuamente. No contexto geral do texto, porém, é uma narrativa de fabricação de ídolos – de imagens de deuses que não só afrontavam o Deus Único, mas de deuses e deusas que eram perversos em seus atributos e recebiam até sacrifícios infantis.
Nesse verso vemos que a técnica, em si, não é condenável, mas o uso inapropriado dela ( a confecção de uma divindade – e nessa inclui-se uma cosmovisão da vida ) o é. É achar que um método humano que mal administra ou explica uma ínfima fração da criação pode descobrir e explicar o Criador da vida e reger a Sua criação.

Deixe um comentário