O título não é gramaticalmente correto – na verdade, o texto de Apocalipse 2.20 fala de tolerância para com Jezabel: “tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem cousas sacrificadas aos ídolos” (Apocalipse 2.20). A ideia do título é designar uma espécie de doutrina de tolerância religiosa caracterizada pela proteção de interesses e vantagens, materiais ou não (inclusive culturais, políticos, eclesiásticos e sociais) advindos da transigência dos princípios de fé e prática do (in)fiel.
Falei sobre Jezabel e o contexto em que ela surge no Apocalipse no texto “Fanfarrão – a soberba de uma boa vida”, que você pode ler clicando aqui. Reproduzo, abaixo, o parágrafo:
O apóstolo João sabia do que estava falando. Sua carta de I João, já tardia, está entre aquelas em que os destinatários já não são mais os cristãos não perseguidos; aqui vemos uma orientação espiritual que no seu livro de Apocalipse está cifrada. Em epístolas mais tardias, como esta de João (85-95 d. C.), já não se fala mais de cristãos em categorias econômicas mais abastadas como comerciantes, por exemplo. Isso é reflexo da perseguição bem descrita no seu Apocalipse, em que para comercializar era necessário ter, na mão ou na fronte, a tatuagem de alguma associação comercial que prestasse culto ao Imperador (e no ritual de filiação a essa associação prestar culto a ele, 13.16-17), e conforme maior o sacrifício alcançado oferecido ao Imperador maior a proeminência na entidade comercial, a ponto de ganhar colunas com o próprio nome nos templos de adoração ao Imperador (3.12), sendo certo que o combate às heresias nessa carta de João pretendia imunizar os cristãos contra a prática de adotá-las para conformar a comunidade cristã ao culto ao Imperador, prática denunciada na condenação, pelo próprio Senhor Jesus, a uma pessoa ou tipo de pessoa identificada como Jezabel (2.20), que possivelmente garantia acesso dos membros da igreja cristã à economia imperial mediante a adesão às suas profecias.
Simon Kistemaker, no seu comentário do Apocalipse (Editora Cultura Cristã, 2a. edição, página 189) , assim escreve sobre esse verso de Apocalipse:
Não temos como identificar essa Jezabel em Tiatira. É muito improvável que tenha sido Lídia, a vendedora de púrpura, que foi uma das primeiras convertidas à fé cristã em Filipos. Lídia se converteu nos anos 50 d.C., e Jezabel divulgou seus ensinos em Tiatira nos meados do século 90. Dizer que uma teria sido a outra seria pura especulação, já que o Novo Testamente e outras fontes não fornecem nenhuma informação. Sem dúvida alguma, Lídia fora um membro da guilda [associações comerciais em que concediam autorização para comercializar sob os auspícios do Império – nota do blogueiro] antes de sua conversão e teve que enfrentar o problema de escolher entre Cristo e a guilda. A mulher chamada Jezabel pode ter tido interesses comerciais em Tiatira [essa informação que Kistemaker traz é uma conclusão de Colin Hemer em seu livro Letters to the seven churches].
O objetivo dos seguidores de Balaão (v. 14), dos nicolaítas (v. 6,15) e de Jezabel é o mesmo: o de enganar o povo de Deus, persuadindo-os a adotarem um estilo de vida que lhes permitiria serem aceitos no mundo e a continuarem sendo membros da igreja. Se adotasse o estilo de vida exigido pelas guildas, os membros da igreja não precisariam mais temer serem excluídos. Mas o Senhor diz: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt. 6.24; Lc. 16.13). E Tiago acrescenta: “Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg. 4.4).
O livro Culto e Comércio Imperiais no Apocalipse de João, da Editora Paulinas, reconstitui bem o ambiente político-religioso (e a relação entre religião e política) no Império Romano do tempo do Apocalipse de João, com uma riqueza impressionante de fontes históricas extra-bíblicas.
Há um doutrina não bíblica de tolerância religiosa entre os cristãos que é condenada por Deus. É uma doutrina de composição entre o ambiente profano e a fé cristã. Ela exige que se abra mão dos elementos básicos da fé cristã para que se mantenham as vantagens do presente século: desde ser visto como cool e bacana pelos parentes, amigos e colegas, ter acesso a conteúdo de entretenimento de baixo custo; até receber verbas governamentais ou de financiadores do anticristianismo; bem como ser indicado a cargos em comissão por partidos de matriz marxista.
As oposições e desaconselhamentos que muitos cristãos fazem a outros cristãos para que estes não cancelem suas assinaturas da NetFlix são o exercício dessa tolerância de Jezabel. São racionalizações do amor a um estilo de vida que vale mais do que a cruz de Cristo – para que não se assuma para si próprio e para a vida que não se ama tanto a Cristo e Sua obra assim. Algumas horas de entretenimento valem mais do que a cruz; sim, pois financiam uma obra que – atingindo as afeições – predispõem multidões a ver a obra de Cristo como piada. Não pode alguém que preza a Redenção coadunar com pagar por isso. Não pode mesmo.
Não se trata de censura – os que quiserem falar, falem o que queiram contra Cristo e Sua obra. Mas não vou ser eu a dar 30 moedas para que o façam.

Deixe um comentário