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Editor: Carlos HB de Castro Magalhães (MTb 0044864/RJ)

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O capítulo 18 do livro de Provérbios começa falando em solidão e termina falando em amizade de qualidade. Entre o primeiro e o último verso estão vários versículos que tratam do estado de quem não tem amigos, de quem tem amigos falsos (e dos amigos falsos), de como se constrói uma amizade, chegando, por fim, à sua conclusão que se transformou num dito popular e arquétipo da amizade em nosso inconsciente coletivo: “há amigos mais chegados que um irmão“.

O tema da amizade é uma herança do Éden. Aristóteles diz que a amizade é o fundamento da democracia; isso vemos também na trilogia O Senhor dos Anéis: é a amizade que impediu Sauror de estabelecer seu império de sombras sobre a Terra Média. É razoável afirmar que todo aquele esplendor da Jerusalém e da Israel dos tempos salomônicos só foi possível por causa do fortalecimento dos vínculos entre os hebreus – inclusive vínculos de amizade. Certo é que a decadência e a secessão do Reino dos Hebreus se deram devido às amizades mal construídas por Roboão. Enfim, sem amizade não há vida; e más amizades resultam numa má vida.

O capítulo em comento começa afirmando que o solitário busca o próprio interesse e insurge-se contra a verdadeira sabedoria; isto é, não interage, só sabe de si e isso é insurgir-se contra a verdadeira sabedoria (aqui subentende-se que a verdadeira sabedoria é conhecer o outro, ouvir o outro, interagir com o outro).  Isso se corrobora no verso seguinte: o insensato só quer externar o seu interior (não quer ouvir o outro) e isso é não ter prazer no entendimento (o entendimento, aqui fica explicito pelo paralelismo, é ouvir o outro).

Isso é qualificado como uma perversidade (além de falta de sabedoria): dela virá o desprezo; e com esse desprezo (ignomínia), vem também a vergonha. Isto é, a pessoa apenas externa o seu interior mas despreza a contrapartida que seria ouvir o outro; mas não só isso, em não ouvir o outro, a pessoa mergulha a si em novas condutas, ações ou ideias vergonhosas, que não teria se ouvisse o outro. Os seus pecados são castigados com mais pecados, decorrentes do ensimesmamento de não ouvir e não procurar entender o outro.

Ouvir e compreender  o outro é fonte de sabedoria; sabedoria aqui é saber ouvir, entender e compreender o outro, como vemos no verso 4: “Águas profundas são as palavras da boca do homem, e a fonte da sabedoria, ribeiros transbordantes“. Na sequência, ele dá alguns métodos para extrair sabedoria do que o outro diz, conforme verso 5: “não é bom ser parcial com o perverso, para torcer o direito contra os justos“; isto é, não é bom alinhar-se a quem não ouve a narrativa do outro, com o intuito de prejudicar alguém.  Essa parcialidade é insensatez, conforme diz o verso 6: “os lábios do insensato entram na contenda e por açoites clama a sua boca“. A pessoa que assim age parece que destrói a si própria (verso 7) e isso pois esse hábito é um laço (uma armadilha) para a sua alma (sua percepção e cognição), conforme se vê no verso 7.

Segundo o verso 8 parece haver algum mecanismo de corrupção em nós, decorrente da Queda, que nos faz sentir prazer em ouvir falar mal e ouvir difamações, calúnias ou injúrias dos e contra os outros: “As palavras do maldizentes são doces bocados que descem para o ventre“.  A ideia é que essa sensação de prazer na maledicência reforça estruturas perversas de parcialidade dentro de nós, causando danos à nossa personalidade, capacidade cognitiva e percepção da vida. Ele arremata (verso 9): “quem é negligente na sua obra já é irmão do desperdiçador“, isto é, na obra de ouvir o outro, aquele que é negligente em buscar a imparcialidade, empatia e entendimento no ouvir o outro é como se fosse o irmão (tivesse como melhor amigo) um tolo que desperdiça tudo que tem. Isto é, não é de quem se fala mal ou contra quem se é parcial que perde, mas o maledicente e o parcial que desperdiçou a oportunidade de adquirir sabedoria, ao comungar da maledicência e perder sua imparcialidade.

Javé (o nome do Senhor) é uma torre forte (verso 10). É a única vez, em todo o livro de Provérbios, que  Javé é referido. Este verso marca o distintivo da empatia e da amizade cristã: a transcendência. Essa obra de construir amizades só é  segura se o fiel estiver protegido em Javé e Seus atributos comunicáveis aos homens (bondade, misericórdia, entre outros). Vemos aqui o pensamento trinitário. Somente em Deus Pai (pelo Filho e ação do Espírito), pode-se construir a amizade.   O autor de Provérbios, na sequência, compara a Torre Forte de Javé com as ferramentas humanas de construção da amizade (verso 11): “Os bens do rico lhe são cidade forte e, segundo imagina, uma alta muralha“. Subtendido nessa ideia estão todas as outras que podem ser resumidas na ideia de amizade baseada em esforço próprio, e não transcendência e virtudes do alto (verso 12a): “antes da ruína, gaba-se o coração do homem“; a honra da amizade é precedida pela humildade (verso 12b), aquilo que o Apóstolo Paulo chama de considerar o outro como maior do que a gente.

É a humildade acima referida que faz não responder antes de ouvir (verso 12), considerando que o que se gaba de saber tudo (o “sabichão” e peremptório) já tem a cognição destruída. Essa humildade gera a sabedoria que permite suportar o espírito daquele que está abatido (verso 14), conforme o verso 15 responde: o coração dos sábios tem o conhecimento para ouvir o abatido e seu ouvido procura ouvir o abatido para compreender não só a situação mas também para disso adquirir conhecimento para usar em outras situações. Amizade é ouvir o amigo queixoso, e esse hábito faz crescer como pessoa e traz honra.

No verso 16 o que se vê é a estratégia de conseguir amizades por interesse, com a distribuição de presentes. Isso opõe-se à ideia de transcendência; a amizade, aí, seria resultado de uma ação (distribuição de presentes para os poderosos) na própria ação de amizade. Enfim, é a ideia de imanência em oposição à da amizade como ação trinitariana.

Esse tipo de amizade é encapsulada na dimensão  material histórica: as amizades por interesse geralmente não são mais amizades quando o interesse é satisfeito. Boas contas, bom amigos – ouvi de um sagaz advogado dezenas de anos atrás. Realmente a clareza de termos e a proteção do interesse do amigo com quem se negocia fortalece as amizades; mas quando a amizade tem bases imanentes, os bom amigos somem se  as contas não são boas… O interesse e os presentes, aí, são como os bens do rico (são também uma forma de penetrar a muralha que o rico considera que eles são (verso 11);  a amizade, aqui, como tudo no homem sem Deus, foi reduzida à matéria e tempo históricos.

Hoje os interesse e os amigos estão nos locais onde os pleitos são decididos; os homens do tempo bíblico ao menos  eram mais dignos – apelavam para o lançar sortes (verso 18), que era uma forma muito rudimentar de transcendência. O zelo dos marinheiros que jogaram Jonas no mar em lançar sorte e tentar ao máximo escapar da tempestade é uma humilhação para muitos de nós cristãos ao julgar os outros.

Há contendas que vêm de ofensas (verso 19) e servem não para punir, mas para isolar-se do ofensor; não há interesse num ganho real, mas apenas em ofender (verso 20). A transcendência do perdão (a misericórdia em ação) quebra esse ferrolho; mas para compreender isso é necessário até saber ouvir ofensas para reconquistar o amigo.  A morte e a vida (da, na  e em decorrência da) amizade estão no poder da língua (verso 21); utilizar a língua aí, não é só o falar, mas o usá-la adequadamente para ouvir o outro falar, e o utilizar-se da fala do outro para compreendê-lo. Pronto, assim, o fiel estará apto a receber uma boa esposa – uma benevolência de Deus! (verso 22). A boa esposa é a que sabe falar e sabe ouvir e transcende a redução ao material e histórico do pobre, que imanentemente vai suplicar (verso 23a) e do rico, que imanentemente vai falar duramente (verso 23b). Para além da categoria no mundo material e histórico, a boa esposa (aquela que é presente de Deus!) não está encapsulada nessas circunstâncias.

Por fim, o outrora solitário tornou-se sábio, capaz de ouvir os outros, transcendente e marido de uma boa esposa. Ele ouve com atenção e consegue compreender o que está por traz da palavra do ofendido, do ofensor e do sofredor. Ele tem amizades e relações desinteressadas, mas profundas e para além dos interesses. Ele construiu tudo isso escondido no nome de Javé, e não no seu próprio braço ou habilidade ou riqueza. Ele não tem muitos amigos – não vive de superficialidades – mas tem amigo mais chegado que um irmão (verso 24).

 

 

 

 


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