Cristo é superior a Moisés
Sermão em Hebreus 3.1-6, entregue na Igreja Presbiteriana de São Cristóvão em 27 de fevereiro de 2022
I – Introdução
Temos o mau hábito de chamar os homens do passado de “antigos”. Todavia, esta designação é errada. Antigos somos nós – nós que temos acesso e recebemos o produto de todas as experiências passadas. Os antigos na verdade são os inexperientes – eles eram como crianças sem experiência de vida.
Pode ser que muitos se sintam incomodados com um comparativo entre Cristo e Moisés. Isso é politicamente incorreto; e quando comparamos Cristo e Moisés comparamo-Lo também com os outros fundadores de religião e com os outros sistemas religiosos. E nisso também há muita antipatia. Jesus é superior aos demais sistemas religiosos e a religião cristã é superior às outras religiões. E isso pois tanto Moisés como as outras religiões, em suas insuficiências e alcance parcial, apontam para Cristo.
A experiência teológica da humanidade se completa e resolve em Cristo e a partir daí é julgada por Ele.
II – Contexto histórico Redentivo
Não precisamos entrar muito no contexto histórico literário do texto, já exposto nos sermões anteriores pelo Rev. Joel Theodoro; o mesmo se diga quanto ao contexto histórico redentivo, bastando relembrar o que já foi dito, de que o autor de Hebreus busca resolver as crises doutrinárias dos cristãos hebreus provocadas pelos judaizantes.
verso 1. Santos irmãos são todos aqueles que o Pai adotou. O texto indica na palavra irmãos esta adoção e regeneração; e na palavra santo a santificação operada pela vocação – que é celestial, em contraste com a chamada mosaica para o Êxodo – que é terrestre. Por causa dessa vocação somos irmãos e somos santos, e não por nós ou nossa força.
A única vez que Jesus é chamado de Apóstolo em todo o Novo Testamento. Ele é Sumo Sacerdote mas também Sumo Apóstolo. Apóstolo é o Enviado. Jesus não é mero enviado, mas o Enviado, um Embaixador em nome de Deus para tirar os homens do poder do Pecado – maior que o poder de Faraó – para o Reino Celeste – maior e mais precioso do que a Terra Prometida.
Confissão tem o sentido de acordo legal. No grego, homologeo, concordância, assentimento, acordo mesmo. A referência encontra paralelo na fórmula precedente dos Dez Mandamentos – “então falou Deus todas estas palavras“, o pacto comum entre um Rei e seus tributários, com imposição de cláusulas à qual se assente e concorda ou então sofre-se o castigo do rei com exército mais poderoso. Confissão aqui é como um contrato de adesão ao qual se adere, sem discussão das cláusulas, adesão sem a qual dele não se participa. A Confissão aqui é toda a religião cristã, num sentido metonímico mesmo, significando que se aderiu a ela, submetendo-se ao que nela agrada e também ao que nela desagrada, por causa do chamado, da vocação de Cristo. Não se trata da confissão dos lábios, no sentido herético dos cultores da denominada “palavra rhema”, ou de mero exercício de lábios sem adesão interna.
verso 2. Jesus é fiel ao que o constituiu. Fiel (do grego pistos) aí é digno de confiança, servo fiel no desempenho do Seu dever. Casa, aí, refere-se a Números 12.7, a casa no sentido do termo hebraico bayith, casa no sentido de família (Casa de Arão, Casa de Davi, por exemplo) e não no sentido de construção ou edifício.
Detenhamo-nos um pouco no evento de Números 12.7. Moisés havia casado com uma cuxita – uma etíope, de um povo estabelecido ao sul do Egito, descendente do amaldiçoado Cam (Gn 10.7) – e Miriã e Arão iniciam uma rebelião contra ele. Nesse contexto, Deus afirma que a integração da esposa cuxita de Moisés à familia de Israel não maculou a fidelidade de Moisés à Deus, apontando para o Evangelho que não faz distinção entre povos, raças e classes. “Vejam só, Moisés casou com uma mulata!”; não era um preconceito racial mas teológico pelo fato dos cuxitas serem descendentes de Cão, que viu a nudez de Noé.
verso 3. A confiança depositada em Cristo é maior do que a em Moisés pois a família da fé que Ele estabeleceu é maior que a família da fé que Moisés estabeleceu. A de Moisés é apenas parte dela, da família da fé que é inteira somente por Cristo. II Samuel 7.11-13 fala de Um que viria cujo trono seria estabelecido para sempre. Esse verso também é trinitariano, pois identifica Cristo com o Pai, que é quem estabelece a casa; mas também é distinto do Pai como Pessoa enviada que a estabelece (verso 1 – Apóstolo e verso 6).
Detenhamo-nos sobre o texto de II Samuel. Trata-se da aliança de Deus com Davi. Deus não diz a Davi e Natã o que eles devem fazer; mas diz o que Ele próprio, o Senhor, fará: uma casa e um reino eterno, mesmo após o descanso de Davi. Note-se a distinção entre o Templo e a Casa como família de Deus.
Por isso Cristo é digno de maior glória (doksa, doxa), no sentido de reconhecimento mais abrangente. A palavra aqui não indica o sentido de adoração, mas de reconhecimento – na atividade de pensamento e raciocínio – de maior abrangência, importância, significado e alcance do que ao qual se compara – Moisés.
A obra da Cristo, a obra da Graça, é maior do que a da Lei e de Moisés, tanto em relação a quem se resgata, mas também em relação ao do que se resgata, e também para onde se resgata.
verso 4. Como dito no verso anterior, é impossível compreender a sublimidade da obra de Cristo sem a perspectiva trinitariana. Deus edificou todas as coisas, Israel e a Igreja, mas a esta por Seu Filho, sendo Moisés apenas servo. No verso 3 o construtor é o Filho e aqui o Construtor é o Pai; mas em qualquer verso Moisés é servo fiel. Lactâncio, escritor cristão do século 3 e conselheiro de Constantino I escreveu sobre este texto: “temos aqui uma única casa de Deus, bem como o Filho e o Pai, oquais, em harmonia, habitam no mundo e são um único Deus“. Essa verdade está contida em Hebreus 1.3.
Edificou aqui nesse versículo refere-se, no seu significado, não só à estrutura, mas ao adorno. Deus constrƥi e faz o acabamento de Sua família. O Pai e o Filho não são só responsáveis pela justificação que nos tira do poder do pecado mas pelas boas obras daí decorrentes, em nós – isto é, efetuam, pelo Espírito Santo, as obras morais que adornam e necessariamente devem adornar a vida do crente.
verso 5. Aqui o autor da epístola retoma a abordagem a Números 12.7. Moisés é fiel administrador da lei, muito digno por isso, como testemunha do Evangelho que viria. Em João 5.46-47 vemos isso claramente.
Na versão que utilizo (NAA) não aparece a expressão ‘na verdade’, qe nos manuscritos indica uma partícula primária (men), que tem sentido de contraste por asseveração. O autor de hebreus usa este recurso para asseverar que Moisés foi servo em parte da família criada e instituída pelo próprio Cristo com o Pai. O autor, com esta expressão, caminha aqui para a conclusão deste período argumentativo.
verso 6. Cristo é fiel em Sua Igreja. O sinal de ser igreja é a perseverança; Ele é fiel para com a Sua igreja, que é composta daqueles que perseveram; esta perseverança em última análise, é uma graça decorrente da vocação que vimos no verso 1. Perseveram os vocacionadas, não pela lei, mas por Cristo, que aderiram a Ele, que em seus raciocínios O têm como mais abrangente em Sua obra (o que se chama Graça) do que a lei mosaica ou a sabedoria greco-romana; O identificam como Um com o Pai, e como Quem os santifica; sendo, por fim, família do próprio Cristo.
Guardar firme, aí, é katecho, indicando em passagens igualmente utilizadas o sentido figurado de conservar no coração e na mente.
Confiança, (bebaios), traduzido na NAA por ousadia, significa estabilidade e firmeza. A tradução parece resolver um jogo de palavras do autor do texto, ao associar esta estabilidade e firmeza à exultação (jactância) da esperança, para indicar que ela também é uma graça decorrente da vocação. Confiança, aí, associada a tais termos, mais a katecho, indicaria coragem, destemor, enfim, a parresia inspirada pelo Espirito Santo no coração dos crentes.
III – Aplicação
* Nossa vocação é para um reino celeste, que é em si superior ao terrestre;
* essa vocação é para todo tipo de gente, que passa a integrar a mesma família de fé, a mesma aliança da graça – isso deve nos afastar de preconceitos e estabelecer parâmetros éticos coerentes nos nossos relacionamentos;
* a sublimidade e superioridade de Cristo não é apenas elemento de adoração, mas primeiramente de entendimento. Na nossa compreensão das coisas e da vida, Cristo e Sua obra devem ser sempre tidas com organizadoras de tudo o mais – por serem mais abrangentes. O fundamento de uma vida Cristocêntrica começa no entendimento;
* somos justificados e santificados por Cristo. Devemos sempre verificar se estamos (bem) praticando os Seus meios de graça pelo qual Ele nos santifica;
* por melhor que seja um líder ou ensinamento espiritual, ele nunca vai ser mais do que Cristo; * e, por fim, não devemos ser tíbios em relação à ousadia da nossa esperança, aceitando as acusações de arrogância e preconceito lançadas contra os cristãos em decorrência da afirmação exclusivista da superioridade de Cristo

Deixe um comentário