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Editor: Carlos HB de Castro Magalhães (MTb 0044864/RJ)

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A exposição que John Bunyan, conhecido por seu clássico O Peregrino, faz da parábola do relato de Cristo registradao no capítulo 16 do Evangelho de Lucas é um chamado ao aprofundamento da importância que damos à salvação da nossa alma. Falar ou escrever sobre o inferno é muito impopular nos púlpitos e devocionais de hoje e quando nos deparamos com tais obras é como se uma palha de aço arrancasse crostas de sujeiras, conceitos errados e fantasias indulgentes do nosso entendimento e afeições sobre o pós morte.

Bunyan considera que após o falecimento do corpo a consciência prossegue e esta, chamada alma, dos ímpios será lançada no inferno onde sofrerá tormentos eternos. No correr da obra o autor adiciona aos ímpios os falsos cristãos, divididos em hipócritas e pretensos cristãos, gente nominalmente cristã mas não verdadeiramente convertida, alguns convivendo a vida inteira com a religião, seus ambientes e sacramentos mas sem uma salvação genuína.

Ele inicia expondo o verso 23, onde se diz sobre o homem rico: “E no inferno, erguendo os olhos…”. Aqui Bunyan fala do significado do “erguer os olhos”, dizendo que a expressão equivale a algo como “passar a ver”, ou a “compreender”. Sem dúvida, conforme o autor, Jesus quis dizer aí que o rico vê a verdade, a realidade, mas tardiamente, e esse ver a verdade em si, mas sem resultado ou alteração da condição de perdição eterna é componente do tormento. No inferno, os lá presentes saberão e crerão em tudo sobre Jesus que deveriam ter sabido e crido em vida, e isso lhes servirá de tormento.

Erguer os olhos somente no inferno revela o estado de morte espiritual que leva a não aceitar a condição pecaminosa em vida, mas apenas lá. É erguer do sono, acordar, despertar, por causa da tormenta.

Bunayan diz que o rico ao erguer os olhos ‘estava em tormentos’, para destacar que “enquanto os homens viverem neste mundo e estiverem num estado natural, pensarão muito bem de si mesmos e de sua condição”. Esse estado só é alterado com a tormenta do inferno, após a morte, ou pelo convencimento do Espírito, durante a vida. Segundo Bunyan, as tormentas do inferno fizeram o homem rico abrir (erguer) seus olhos. Um ímpio só se tornará consciente de seu estado espiritual quando atormentado no inferno, se Deus não se compadecer dele e Seu Espírito não convencê-lo em vida. Em seu estado natural muitos pensam que são filhos de Abraão e que estão em bom estado; chegam mesmo a se achar participantes do Espírito e de Cristo, até mesmo por terem profetizado, curado e expulsado demônios. Contudo, estão destinados ao tormento do inferno.

Bunyan descreve os tormentos do inferno usando as palavras e expressões usadas na Bíblia: verme que nunca morre, fornalha ardente, fornalha de fogo, poço sem fundo, fogo inextinguível, fogo e enxofre, fogo infernal, lago de fogo, fogo devorador, fogo eterno, chamas eternas e torrente de fogo.

Segundo o pregador, inclui-se na tormenta do inferno, além dessas sensações acima – Bunyan fala de uma bola de piche pegando fogo nas entranhas – a plena consciência da vida que foi desperdiçada aqui na terra. A consciência será de tal modo queimada, que de cada pecado, necessariamente, o condenado se lembrará eternamente, lembrança concomitante com a lembrança das vezes em que se desprezou a eternidade. Cada pecado e todos eles juntamente pesarão na alma como fogo eternamente. Aqueles que em vida pensaram em seus pecados com prazer lá lembrarão, em tormentos, do modo como pensavam neles. Os que neles se gloriavam receberão tormento proporcional à glória que aos seus pecados atribuíam.

Também comporão o tormento, segundo ele, ver os salvos em glória com o Pai: “haverá choro e ranger de dentes quando virdes Abraão…” (Lucas 13.28), bem como a companhia de almas condenadas e inumeráveis demônios. Se aqui a simples possibilidade de um demônio se manifestar ou aparecer faz as pessoas tremerem, lá haverá pavor contínuo e sem fim, pois eles serão companhia presencial. Tudo isso incrementado com uma tormenta indescritível designada como grande ira de Deus.

O inferno será um tormento sem fim e também sem intervalo, sem alívio e sem folga, expõe Bunyan.

Bunyan prossegue expondo que o tormento infernal será incrementado pela companhia dos que foram amados em vida, que deveriam ter sido instruídos pelos condenados a procurar a salvação e não o foram – ao revés, em muitos casos, foram instruídos a desprezar e zombar do Evangelho. Quando o homem rico pede a Abraão que se envie aos seus parentes vivos alguém para alertá-los ele o faz não por amor aos que estão vivos, mas pela tormenta que eles lhe causarão quando lá chegarem. Imaginem todos os que foram enganados por Balaão, ou pelas mentiras bancadas por Anás e Caifás sobre a ressurreição, o que já não fazem com essas pessoas no inferno. Imagine quantos ex membros de igreja e paroquianos já não surram falsos sacerdotes que os enganaram. Quantos filhos de crentes nominais que tiveram o cuidado de suas almas entregues ao ensino secular não surram seus pais e mães no inferno…

Bunyan diz que no inferno será tarde demais para arrependimento e misericórdia. Haverá clamor e oração no inferno, mas sem resposta. Haverá desejo de escape da ira de Deus, mas sem possibilidade de que isso ocorra. Pelo contrário, uma parte da tormenta será saber que Deus ri da condenação eterna deles (Provérbios 1.26).

O autor prossegue descrevendo o desejo que o rico ímpio terá da companhia de Lázaro. O amor do servo de Deus pelas almas perdidas se projeta na eternidade também sob o desejo irrealizável do ímpio condenado (atormentado por isso) de estar na companhia daqueles que desprezou por serem cristãos, em vida. Desejarão o menor gesto de amizade e favor dos crentes outrora desprezados agora que estão no inferno.

Bunyan destaca que quando Jesus fala do desejo do rico de que Lázaro molhasse a ponta da sua língua Ele está apontando para a arrogante invocação de autonomia do ímpio: “ Com a nossa língua prevaleceremos; são nossos os lábios; quem é senhor sobre nós” (Salmos 12.4). Pouco antes do relato em comento está registrado a blasfêmia contra o Espírito Santo, onde alguns fariseus acusaram Jesus de expulsar demônios pelo maioral dos demônios. Essa autonomia mentirosa e arrogante de descompromisso com a Verdade será causa especial de tormento eterno. Atentemos para o mau hábito ocidental de tudo relativizar e distorcer, de conceder à língua o poder de designar a realidade como bem quiser. Isso é prenúncio do inferno.

Concluindo, o livro é bom para uma sequência devocional individual com o objetivo de nos conscientizarmos do cuidado com a nossa alma e verificação dos frutos da regeneração, “das coisas que acompanham a salvação”, como diz o autor de Hebreus. Se por um lado temos o descanso na certeza de que quem o Pai deu a Cristo não será arrebatado de Sua mão, o próprio Cristo diz para que estejamos vigilantes e sermos como as virgens prudentes, que guardam o óleo para usar em suas lamparinas quando a madrugada vier. Diz que é por esforço que se entra no reino dos Céus; e que é estreita a porta pela qual se entra. A eleição não é repouso, pois Paulo diz que o céu é alcançado pelos eleitos (Romanos 11.7). Um eleito necessariamente corre para o alvo, toma o reino a força, se esforça para entrar na porta estreita, na qual bate e que – se abrindo – o faz alcançar o céu.

Temer o inferno não significa para o cristão temer a sua tormenta, mas temer só erguer os olhos e conhecer a verdade sobre a condição de sua alma lá; temer só dar o valor devido ao Evangelho lá; temer só querer a companhia dos crentes lá; temer só desejar trabalhar pela salvação daqueles por quem somos responsáveis lá. Nesse sentido, o Espírito usa essa parábola para que nos aprofundemos no conhecimento de nosso estado e responsabilidades espirituais. É um pequeno livro para ser lido várias e várias vezes nas devocionais diárias.


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