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Olho grande é pior do que macumba“, ouvi, ainda moço, um típico carioca descolado da velha guarda, já com os seus sessenta e poucos anos, dizer enquanto trabalhávamos carregando material de um evento da igreja na carroceria de uma Kombi. Ele era o motorista da Kombi e todos os envolvidos conversávamos sobre circunstâncias banais da vida quando ele – após ouvir um relato – soltou essa.
John Gill ao comentar o primeiro verso do capítulo 3 da epístola de Gálatas (3.1 – “Ó gálatas insensatos! Quem vos enfeitiçou? Não foi diante dos seus olhos que Jesus Cristo foi exposto como crucificado?“) expõe que o termo grego utilizado para enfeitiçar (também traduzido como fascinar) é baskaino, que significa primordialmente invejar.
Paulo falava dos cidadãos da Galácia que tendo aderido à obra redentora de Cristo agora a substituíam retrocedendo às práticas legalistas dos judaizantes. John Gill diz que a versão siríaca traduz o texto como “quem vos invejou” e que dessa inveja adveio a pregação herética que os afastou das bênçãos obtidas pela obra na cruz, de Cristo.
O texto indica que a principal falha está nos invejadores: os falsos mestres, segundo Gill:
“Embora o apóstolo repreenda os gálatas pela sua loucura e fraqueza em ceder tão facilmente a tais enganos, ainda assim ele imputa a principal falha e coloca a maior culpa sobre os falsos mestres; os quais ele representa como feiticeiros e encantadores, e sua doutrina, em especial a da justificação pelas obras obras, como feitiçaria, sendo esta que agrada aos homens e a razão carnal, e exerce um pode encantador sobre o orgulho da natureza humana”
A ideia remete ao mesmo sentido do dito por Samuel a Saul em 1 Samuel 15.22: “…a rebelião é como o pecado de feitiçaria…” e a rebelião de Saul, aí, foi usurpar o encargo do profeta de oferecer os sacrifícios. O rei Uzias, tendo feito o mesmo, foi ferido com lepra. O envolvimento de Saul com a feitiçaria e sua inveja de Davi se entrelaçam nesse ponto. John Gill explica o processo:
“A palavra grega baskaino significa “invejar” e, portanto, “enfeitiçar”; porque o dano, por feitiçarias, geralmente decorre da inveja; e, assim, a versão Siríaca, cujos textos em árabe o traduz “quem vos invejou”, o que sugere este sentido, que os falsos apóstolos, invejando sua luz e conhecimento no Evangelho e a sua fé, paz, consolo e felicidade se esforçaram para introduzir uma outra doutrina entre eles, subversiva de tudo aquilo”.
O esquema indicado por Gill é o seguinte: 1) uma pessoa adere à obra redentora de Cristo na cruz; 2) esta adesão começa a produzir frutos na vida dela (a organização da vida a partir da alegria da salvação); 3) uma pessoa ou pessoas invejam essa melhora da vida do cristão; 4) os invejadores formulam falsas doutrinas para lançar enganar os cristãos; 5) essas falsas doutrinas são inicialmente fascinantes, mas são outra coisa diversa da centralidade da Obra de Cristo na Cruz; 6) o cristão muda a organização da sua vida para que seja a partir do falso ensino e retrocede.
Aplicação
1. Não há imunidade contra inveja ou feitiçaria mas todo cristão cuja vida é centrada e organizada a partir da obra de Cristo na cruz e justificação pela fé somente – o cristão cuja doutrina da Justificação pela Fé é o argumento organizador de sua vida – não retrocede nem é abalado ou destruído por inveja ou feitiçaria.
2. Embora o esquema indicado por John Gill refira-se à salvação da alma, pode muito bem ser usado para identificarmos – vendo nele o proceder nosso ou do outro – para discernirmos a inveja nos outros e em nós próprias: quantas vezes nossas críticas (com “racionalizações” que julgamos certas) na verdade só o são feitas pela nossa inveja, muitas vezes inconsciente? E quantas críticas dos outros a nós também não o são?
3. Assim como os falsos mestres de Gálatas invejaram aqueles cristãos pelo dom gratuito da fé, é muito comum invejadores invejarem os talentos, dons e características inatas, bem como as desenvolvidas, e todas aquelas que envolvem uma felicidade legitima e genuína. Tal qual os falsos mestres, os invejadores falarão falsidades para desqualificá-las. Quem organiza a vida a partir da Cruz sabe que toda dádiva e todo dom perfeito é distribuído por Deus – e não se rebela contra isso.
4. Falso ensino é aquele que compromete a adesão à obra redentora de Cristo; muitas vezes a inveja (ainda que inconsciente) é o seu motor. Os ensinos da esquerda evangélica vão muito nesse sentido, pois o movimento revolucionário é um movimento de revolta contra a distribuição de dons e talentos que Deus fez entre os homens individualmente para que estes os desenvolvam; é, também, um avanço sobre a liberdade, habilidades e bens distribuídos por Deus entre os homens para controlá-las, usurpando a própria mão de Deus.

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