
Um dos episódios da narrativa bíblica que destacam o caráter e atributos da Divindade em sua revelação progressiva é aquele em que os filisteus vencem os hebreus na batalha de Ebenézer (I Samuel 4). Os israelitas levaram a Arca da Aliança como se fosse uma arma de guerra, carregada por sacerdotes corruptos, esperando que o Deus verdadeiro agisse para vencer a batalha pela simples presença do artefato de culto ali. Os filisteus lutavam por Dagom, o seu deus pagão, e derrotaram os hebreus, capturaram a Arca da Aliança e a depositaram aos pés de uma imagem de sua divindade, como expressão da superioridade desta sobre o Deus dos hebreus.
A revelação do Deus bíblico foi progressiva: Jeová não se deu a conhecer todo de uma vez – e nem o fará. Ele se revelou na medida da compreensão da humanidade, em seu estágio histórico, e na medida em que ao revelar-Se os homens não fossem destruídos pelo atributo da Santidade. A revelação de Deus completou-se em Cristo, o Deus-Homem. Na narrativa bíblica o episódio da batalha de Ebenézer nos remete a um ensino de Deus ao Seu povo de que Ele não era como os deuses pagãos.
Eu tenho a impressão de que muitos evangélicos brasileiros precisam reler e refletir sobre o texto da batalha de Ebenézer. Nas últimas eleições houve o uso de nosso culto como arma de guerra eleitoral. Não que uma ou outra posição política ideológica não seja mais ofensiva a Deus do que outra; mas que Deus não precisa de defesa, pois Ele é Deus, e o próprio Deus não admite que Seu culto seja reduzido à superstição – fruto do descompromisso com Seus atributos – como os pagãos fazem nos cultos aos seus falsos deuses. O Filho de Deus vem sendo tratado como Exu por muitos evangélicos.
Sem dúvida, pulularam nas redes sociais e na imprensa as orações e determinações proféticas, os “tá amarrado”, os “tá repreendido”, os “o sangue de Jesus tem poder” como garantia de que o presidente Bolsonaro fosse reeleito. Muito foi dito de que era uma briga do Bem contra o Mal (a velha heresia do maniqueísmo), como se Jesus ao invés de estar à direita de Deus estivesse num ringue de vale tudo com o Diabo.
O mais danoso, contudo, foi a fusão dos elementos de culto evangélico com os interesses eleitorais. Pastores nos púlpitos de suas igrejas determinaram a vitória de Bolsonaro, alguns apelando às chaves da autoridade da Igreja e outros afirmando que “Deus havia determinado que Bolsonaro fosse o Seu instrumento para salvar o Brasil”. O nome dessa heresia é monofisismo, a confusão dos poderes divinos e temporais em uma prática ou pessoa da religião – a igreja cristã a rejeitou no Concílio da Calcedônia.
Isto revela pouco conhecimento do instrumental teórico disponível aos conservadores no Brasil; conservadorismo que, no atual momento, é a posição política mais compatível e benéfica a uma vida tranquila pelos cristãos brasileiros. O que assusta é que esse baixo conhecimento possa ser fruto do Anti-intelectualismo pietista e da facilidade do conhecimento supersticioso em comparação com o duro estudo que exige o conhecimento teológico-filosófico.
Convido o leitor a ler os capítulos seguintes ao da Batalha de Ebenézer no livro de Samuel. Deus, por Si só, faz com que a Arca da Aliança seja reconduzida ao Seu povo, ensinando, pelo episódio, que Ele é santo e não se mistura com essa suja e falida disputa do homem pelo poder e domínio. Ele é Deus. Se o leitor for ler a narrativa bíblica de I Samuel 5, vai ver que o poder verdadeiro é de Deus; e dos que tratam Deus supersticiosamente, as hemorroidas…

Deixe um comentário