Às vezes, temos vontade de sumir. Somos imperfeitos, mas parece que o mal à nossa volta consegue nos ofender, a nós, que, vez por outra, nos chamamos os piores dos pecadores. Certos crimes causam repulsa até nos piores criminosos, e aqueles que os cometem muitas vezes precisam se acautelar no presídio. O mundo, tão degradado, nos rodeia cheio de maldade, e logo a fala do profeta nos vem à memória: “Sai dela, povo meu”.
Hebreus 12:1 fala “do pecado que tão de perto nos rodeia”, estando nós diante de “tão grande nuvem de testemunhas” — os santos de Deus do passado, que estão no céu torcendo por nós, como se estivessem na arquibancada de um estádio —; estes nos rodeiam, como nos rodeia o pecado, o mal. E, por fim, o conselho: deixar de lado todo embaraço para corrermos, no estádio, com desenvoltura, enquanto o pecado procura nos embaraçar.
Desembaraçar-se do mal que nos rodeia não exclui o correr no estádio com ele ao nosso redor, tentando nos fazer cair e sabotar, como um Dick Vigarista cósmico. Como somos rodeados — e aqui vai a esquecida doutrina da comunhão dos santos (dos mortos e vivos misticamente ligados em Cristo) — por gente que já venceu o mal, usufruímos das memórias e dos ensinos resultantes da vida deles, de sua perseverança, piedade, obediência e martírio — enfim, de como eles se desembaraçaram e não se deixaram embaraçar pelo mal. O pecado nos rodeia, mas o testemunho dos crentes que o venceram também nos rodeia!
John Frame (@DrJohnFrame), num recente post no X, escreveu que a “principal regra para os cristãos do Novo Testamento não é a separação física do mal, mas a conquista dele”. Não se deixar embaraçar pelo mal é sanear os espaços pelos quais ele tenta nos embaraçar. É conquistá-lo. Isso inclui marcar os limites, tão próximos, de modo que nossa individualidade não venha a se confundir com a presença geral dele. Desembaraçar-se, no grego aí do texto, traz a ideia de despir-se de roupas pesadas que atrapalham a corrida; não são coisas pecaminosas, pois ele o distingue do pecado, mas coisas culturais, políticas e econômicas que atrapalham a caminhada cristã. Isso significa que o projeto de vida cristã submete a escrutínio várias coisas. Não é pecado assinar a Netflix, mas posso me desembaraçar dela se ela facilita a vida do mal que tão de perto rodeia a mim ou a meus filhos. Posso também levar Cristo à produção cultural, aos seus roteiristas, produtores e financiadores, e conquistá-los, também fortalecendo os canais que produzem cultura sob um escrutínio mais próximo dos valores da cristandade.


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