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Uma vez, ouvi uma frase fundamental, embora de perspectiva psicológica: “A igreja é um campo de projeção de frustrações”. A experiência de vida na igreja confirmou muito isso. Na verdade, muitas vezes a vida prática da igreja é vivida por muitos para projetar a frustração em outros setores da vida.
Lembro-me de alguns exemplos, em várias etapas etárias da minha existência: um amigo da igreja, por volta dos meus 16 anos, dando-me conselhos sobre o que seria o ensino médio, visto que ele estava no segundo ano (dizia ele) e eu havia acabado de entrar no ensino médio. O interessante é que ele mentiu, pois havia sido reprovado no primeiro ano e agora estávamos na mesma série, o que para mim não representava coisa nenhuma numa vida comunitária de igreja.
Nesta mesma época, apareceu um pentecostal na igreja (carismática) em que eu era membro. O sujeito, supereminente e santarrão, era o paladino do legalismo — lembro-me dele defendendo que não se podia comer frango ao molho pardo. Ele tinha uma filhinha deficiente, e uma garota pós-adolescente começou a ajudar a cuidar da filha. Ele abandonou a esposa e ficou com a pós-adolescente. Ele projetava a sua própria frustração com a inaptidão moral de sua doutrina pessoal na vida da igreja.
Tempos depois, estava eu voltando da igreja a pé para casa, quando vi que um irmão havia batido com o carro dele em outro. A Polícia Militar parou para documentar o evento e eu, ao ver aquilo, motivado pela fraternidade da igreja e pelas parcas habilidades de um advogado iniciante, fui até lá prestar algum apoio. Era um irmão adepto da teologia da prosperidade, triunfalista, desses que até criticava por discursos indiretos os irmãos mais humildes — era comum ouvi-lo falar do saquitel furado, do gafanhoto devorador. Pois é, quando cheguei até ele e à polícia, ele me olhou atônito e eu acompanhei a repreensão que ele levou dos policiais pelo fato de o licenciamento e os impostos do automóvel estarem todos sem pagamento.
Já maduro, lá pelos meus quarenta anos, cruzei pela rua com um amigo muito querido. Havíamos sido da mesma igreja; ele, bem mais velho do que eu, sempre de uma espiritualidade estridente. Não me cumprimentou, pois eu havia me tornado presbiteriano. Olhou-me enfezado. A filha dele, sempre troféu de sucesso e espiritualidade, tirou a própria vida alguns meses depois, num daqueles dramas que envolvem a comum inabilidade pessoal e comunitária de lidar com crises morais.
Há muitos outros exemplos. Eu mesmo devo ser exemplo de tais projeções de frustração pessoal para alguns. O que todos eles tinham em comum era uma postura pernóstica em relação ao outro. O insucesso (conforme os parâmetros profanos) induz uma projeção compensatória no ambiente cuja marca principal é a fraternidade aberta. Isso só significa que os irmãos que assim agem dão muito valor à “soberba da vida”. A igreja é para isso mesmo: para perceber isso nas pessoas. A devocional do desprezado pelos que projetam suas frustrações na igreja deve ser um dar de ombros para esse desprezo; este desprezo é como um peido: malcheiroso, vazio e fica feio para quem o faz. Ao mesmo tempo, é um lembrete de que o Novo Testamento nos chama a — embora comprometidos com Cristo e Sua igreja — fazer as coisas da igreja desinteressadamente, sem esperar proveito próprio, nem o gozo íntimo proporcionado pelo ego, nem a satisfação proporcionada pelo incremento da autoimagem pública.


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