William Brodie (1741–1788), conhecido como Deacon Brodie, era um marceneiro e conselheiro respeitável em Edimburgo que, à noite, liderava roubos. Sua vida dupla inspirou Robert Louis Stevenson a escrever O Médico e o Monstro. A novela reflete a luta descrita em Romanos 7: o desejo de fazer o bem contra a força do pecado, ilustrando a doutrina calvinista da depravação total.
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Em Romanos 7, o apóstolo Paulo descreve com angústia a divisão interior do homem caído: “Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero fazer não faço, mas o que aborreço isso faço […] Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7:15,24). Essa luta entre o desejo do bem e a força irresistível do mal ecoa em uma das histórias mais fascinantes da literatura: O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson. Mas poucos sabem que a inspiração direta para essa obra-prima veio de um homem real, que viveu exatamente essa dualidade: William Brodie, o respeitável cidadão de Edimburgo que, à noite, se tornava ladrão.

Nascido em 1741, Brodie era filho de um próspero marceneiro e herdou o negócio da família. Tornou-se um homem de destaque na sociedade escocesa do século XVIII: líder da guilda dos marceneiros e pedreiros (cargo conhecido como Deacon, daí o apelido “Deacon Brodie”), conselheiro municipal e figura frequente nos círculos respeitáveis de Edimburgo. Sua reputação era impecável – um pilar da comunidade numa cidade profundamente calvinista.
Porém, Brodie alimentava vícios caros: jogos de azar, amantes e filhos ilegítimos. Para sustentar essa vida oculta, ele usava sua profissão de forma sinistra. Como marceneiro, tinha acesso às casas dos clientes ricos; fazia cópias das chaves e, à noite, liderava uma quadrilha que as invadia. Durante anos, o respeitável Deacon roubava aqueles que o admiravam de dia.
A queda veio em 1788. Um roubo mal planejado no escritório de impostos da cidade fracassou. Um cúmplice foi preso e delatou os outros. Brodie fugiu para a Holanda, mas foi capturado em Amsterdã, extraditado e julgado. Condenado à forca, foi executado em 1º de outubro de 1788 – ironicamente, na forca que ele mesmo ajudara a projetar anos antes.

Hoje, sua memória sobrevive na famosa Deacon Brodie’s Tavern, na Royal Mile de Edimburgo, um ponto turístico que celebra (e explora) sua dupla personalidade.
Robert Louis Stevenson, nascido e criado em Edimburgo, conhecia a lenda de Brodie desde criança. Seu pai possuía um armário feito pelo próprio Brodie, e a história do homem “de dia virtuoso, de noite criminoso” marcou o escritor. Ainda jovem, Stevenson escreveu uma peça sobre ele. Anos depois, transformou essa dualidade na novela gótica publicada em 1886.
No livro, o Dr. Jekyll busca separar cientificamente o bem do mal dentro de si. A poção, porém, libera apenas o lado maligno – Mr. Hyde –, que toma controle progressivo. Na confissão final de Jekyll, lemos ecos diretos de Romanos 7: ele descreve como queria viver segundo a virtude, mas uma força interior o arrastava para atos que aborrecia. A transformação não é apenas física; é a alegoria da divisão espiritual que Paulo lamenta: o homem quer o bem, mas a carne pecaminosa prevalece.
Stevenson, criado num ambiente presbiteriano rigoroso, usa a história de Brodie para explorar a doutrina calvinista da depravação total: sem a graça divina, o mal interno vence. O homem não é uno; sob o pecado, é dois – ou, como Paulo diz, “vendido sob o pecado”.
A história de William Brodie nos lembra que a fachada respeitável pode esconder abismos. E nos confronta com a pergunta paulina: quem nos livrará? A resposta, para o apóstolo, está em Cristo Jesus (Rm 7:25). Para Jekyll – e para Brodie –, veio tarde demais.
Que essa narrativa nos leve a examinar não apenas os clássicos da literatura, mas sobretudo o estado do nosso próprio coração.

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