O escândalo das fraudes em descontos consignados do INSS, investigado pela CPMI do INSS e Polícia Federal, aponta conexões entre a família Vorcaro (Banco Master), a Igreja Batista da Lagoinha, a fintech Clava Forte Bank (de André Valadão) e o grupo de jovens empresários conhecido como “Golden Boys”. Até janeiro de 2026 não há condenações, apenas indícios de desvios milionários via associações de fachada e possíveis lavagens por meio de igrejas evangélicas. A relatora Damares Alves citou “grandes igrejas” na apuração, gerando polêmica.
Por Carlos HB de Castro Magalhães
Blog Castro Magalhães
20 de janeiro de 2026
Uma das maiores investigações em curso no Brasil hoje envolve fraudes bilionárias em descontos consignados ilegais nos benefícios do INSS, com ramificações que alcançam o setor bancário, fintechs evangélicas e grandes igrejas neopentecostais. No centro do furacão estão a família Vorcaro (controladora do Banco Master), a Igreja Batista da Lagoinha, a fintech Clava Forte Bank e um grupo de jovens empresários conhecido como “Golden Boys”. Até o momento, não há condenações definitivas, mas os indícios levantados pela Polícia Federal e pela CPMI do INSS apontam para um esquema sofisticado que pode ter movimentado centenas de milhões de reais desviados de aposentados e pensionistas.
As Ligações Históricas da Família Vorcaro com a Lagoinha
A família Vorcaro mantém relações de décadas com a Igreja Batista da Lagoinha, uma das maiores denominações evangélicas do país, fundada pelo pastor Márcio Valadão em Belo Horizonte. Henrique Vorcaro, patriarca da família, ajudou a viabilizar financeiramente a Rede Super, emissora de televisão da igreja. Seu filho, Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, apresentou programas gospel na mesma emissora antes de ingressar no setor financeiro e é descrito como fiel frequente da Lagoinha.
Natália Vorcaro, irmã de Daniel, atua como pastora na filial Lagoinha Belvedere. Fabiano Zettel, cunhado de Daniel e líder religioso ligado à denominação, foi preso temporariamente em janeiro de 2026 durante a Operação Compliance Zero da PF, que investiga fraudes no Banco Master. Zettel, empresário, teria movimentações financeiras suspeitas com o banco e doou milhões para campanhas políticas, incluindo as de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.
A Fintech Clava Forte Bank e o “Banco dos Evangélicos”
Em 2024, o pastor André Valadão – filho de Márcio Valadão e líder da Lagoinha nos Estados Unidos – lançou a Clava Forte Bank, uma fintech voltada ao “mercado cristão”. Apesar do nome, não se trata de banco autorizado pelo Banco Central. A sede fica no mesmo endereço da igreja em Belo Horizonte. O site e o aplicativo saíram do ar logo após as prisões da Operação Compliance Zero.
Deputados federais questionaram o BC sobre possível operação irregular e uso indevido do termo “bank”. Diversas jurisdições internacionais, especialmente aquelas tradicionalmente utilizadas para estruturas offshore, proíbem ou restringem severamente o uso da palavra “Bank” (bem como “Banking” ou “Banker”) no nome empresarial, salvo quando a entidade possua licença bancária válida ou autorização expressa da autoridade reguladora local. Exemplos incluem Seychelles, Ilhas Virgens Britânicas (BVI), Isle of Man e centros offshore do Golfo como RAK ICC, onde o termo é classificado como palavra proibida ou restrita, cujo uso sem licenciamento implica a recusa do registro. A lógica regulatória comum é evitar que empresas não autorizadas aparentem ser instituições financeiras, protegendo o público e preservando a integridade do sistema financeiro; em termos práticos, nas principais jurisdições offshore, o uso de “Bank” no nome empresarial é vedado ou condicionado à prévia aprovação regulatória.
Há suspeitas de fluxos financeiros entre Clava Forte, Banco Master e núcleos da Lagoinha, incluindo possíveis lavagens de dinheiro.
A CPMI do INSS e a Declaração Polêmica de Damares Alves
Instalada em agosto de 2025, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS investiga a chamada “Farra do INSS”: descontos consignados não autorizados que podem ter desviado até R$ 1,4 bilhão. Operações da PF como “Sem Desconto” (abril de 2025) e “Compliance Zero” (janeiro de 2026) revelaram o envolvimento de associações de fachada, como Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB), Master Prev, ANDAPP e AASAP.
Em 11 de janeiro de 2026, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), relatora da CPMI, afirmou em entrevista que “grandes igrejas” e “grandes pastores” estão sendo apontados nos documentos da investigação. A declaração gerou forte reação do pastor Silas Malafaia, que exigiu nomes e provas. Dias depois, Damares divulgou lista de requerimentos da CPMI, incluindo convocações e quebras de sigilo de líderes ligados à Lagoinha, como André Valadão, André Fernandes (filial Alphaville/SP) e Fabiano Zettel.
A Lagoinha emitiu nota oficial negando qualquer envolvimento institucional e classificando as suspeitas como “falsas e sem base factual ou jurídica”.
Quem São os “Golden Boys”?
O apelido “Golden Boys” foi dado pela PF e pela CPMI a um grupo de jovens empresários, em geral entre 28 e 45 anos, muitos com perfil evangélico e proximidade com o bolsonarismo. Eles são acusados de formar o núcleo operacional do esquema. Destaques:
- Felipe Macedo Gomes: Principal operador financeiro, ex-dirigente da Amar Brasil. Patrocinou eventos gospel e doou para campanhas bolsonaristas.
- Igor Dias Delecrode (28 anos): Desenvolvedor de softwares que burlavam biometria e assinaturas digitais para cadastrar aposentados ficticiamente.
- Outros nomes recorrentes: Américo Monte Júnior, Anderson Cordeiro de Vasconcelos, Marco Aurélio Gomes Júnior e Mauro Palombo Concilio (contador residente nos EUA).
O modus operandi incluía convênios irregulares com o INSS, inserção remota de descontos e desvio para contas pessoais. Muitos exibiam enriquecimento súbito, com carros de luxo e imóveis de alto padrão.
Ramificações em Outros Estados
O esquema tem alcance nacional, pois opera sobre o sistema federal do INSS, mas depende de captação regional de vítimas. Templos evangélicos foram usados para promover as associações em eventos e cultos. Além de Minas Gerais, requerimentos da CPMI atingem líderes em São Paulo (ex.: filial Lagoinha Alphaville) e outras denominações com presença em múltiplos estados, como Adoração Church, SeteChurch e Campo de Anatote. Isso sugere que o modelo pode ter sido adaptado localmente por meio de redes evangélicas regionais.
Considerações Finais
Até janeiro de 2026, as investigações seguem em andamento, com quebras de sigilo aprovadas e novas convocações previstas. Não há provas conclusivas públicas nem condenações, e as igrejas citadas negam envolvimento institucional. O caso, porém, expõe a interseção entre finanças, religião e política no Brasil contemporâneo e levanta questões sobre a fiscalização de associações e fintechs que operam à margem da regulação.
O desenrolar da CPMI em 2026 será decisivo para esclarecer se os indícios se transformarão em responsabilidades concretas ou se permanecerão no campo das suspeitas.
Fontes consultadas (até 20 de janeiro de 2026):
- Valor Internacional
- Agência Pública
- Carta Capital
- O Tempo
- UOL
- G1
- Metrópoles
- Gazeta do Povo
- Revista Cenarium
- Revista Focus Brasil
- Brasil Paralelo
- Documentos e requerimentos públicos da CPMI do INSS
- Reportagens sobre Operações Compliance Zero e Sem Desconto da Polícia Federal


Deixe um comentário