Era o primórdio da puberdade quando a vi no elevador do condomínio,
a bela e alvíssima Flávia, a disparar hormônios sem meu domínio,
realçando entre os seios a borboleta tatuada,
como a bater asas em cada teta armada.
Eis que o tempo passou, do condomínio eu já me mudara,
ao visitar minha mãe, com domicílio lá ainda mantido,
eis que entra loura e serena, a Flávia no elevador,
já sem asas voando, só baixadas — o seio, mero pousador.
Eis que mais tempo se passa, décadas talvez,
ao contemplar no espelho do elevador minha novel grisalhez,
surpreende-me a adentrar, outra vez, a bela Flávia,
e comove-me a borboleta, asas abaixadas, parece que de vez.
Oh! Tempo cruel, suporte humano imperfeito!
Temo o futuro previsível em que a outrora firmeza de vez se parta
e eu constate, ao entrar no vertical móvel,
que a borboleta de Flávia virou lagarta.


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