Como era um escritório de advocacia na Rússia antes da Revolução, segundo Leon Tolstói? No trecho de “Ana Karenina” (escrito entre 1873 e 1877) apresentado no Blog Castro Magalhães, o autor descreve de forma vívida a visita ao gabinete de um advogado, revelando os costumes jurídicos, a burocracia e a sociedade da Rússia imperial tsarista.
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A Rússia dos anos 1870, período em que Leon Tolstói ambientou e escreveu Ana Karenina (publicado em série entre 1875 e 1877), era o Império czarista de Alexandre II, marcado pelas Grandes Reformas iniciadas com a emancipação dos servos em 1861. Essa era viu a expansão das ferrovias, a criação dos zemstvos (assembleias locais eleitas de autogoverno criadas em 1864 para gerir educação, saúde, estradas e agricultura em nível provincial e distrital), reformas judiciais e militares, o início da industrialização e o surgimento de uma nova burguesia urbana, ao lado do declínio da aristocracia rural tradicional. O romance captura exatamente essas tensões: o contraste entre a corte europeizada de São Petersburgo e a vida camponesa, os debates intelectuais sobre pan-eslavismo, a “questão da mulher”, a reforma agrária e a hipocrisia social, além de aludir à revolta sérvia de 1876 e à iminente Guerra Russo-Turca. Tratava-se, portanto, de uma sociedade em acelerada modernização, mas ainda profundamente hierárquica e contraditória.
Na perspectiva de Orlando Figes em A Tragédia de um Povo, esse cenário forma o terreno fértil onde germinaram as sementes da crise que eclodiria a partir de 1891 (com a grande fome) e culminaria na Revolução de 1917. Apesar das reformas, as fragilidades do ancien régime — contradições de classe, insatisfação camponesa não resolvida, choque entre tradição e ocidentalização e a incapacidade de integrar plenamente as massas — não foram superadas e apenas se agravaram sob Alexandre III e Nicolau II. Assim, a Rússia descrita por Tolstói, ainda otimista com as mudanças, já carregava o fermento revolucionário que Figes analisa como prelúdio inevitável da tragédia soviética, transformando as tensões dos anos 1870 no solo da catástrofe que se desenrolaria nas décadas seguintes.
No texto a seguir vemos Tolstói se referindo à alegria de um advogado (possivelmente revolucionário) com o divórcio de um aristocráta/burocrata pró reforma, indicando o germe do gosto revolucionário pela destruíção da família, associada que era à aristocracia e por fim, como um indicativo da luta de classe. Como dizia o velho Arthur Rios, meu professor de Sociologia do Direito dos tempos de FND, o revolucionário guarda um grande conteúdo de ressentimento que se compraz na destruição das formas sociais estáveis.
O salão de receção do advogado célebre aonde Alexei Alexandrovich fora estava cheio de gente quando ele lá entrou. Três senhoras, uma velha, outra nova e a terceira pertencendo com certeza ao comércio, um banqueiro alemão com um grande brilhante no dedo, um negociante de barba comprida e um militar com o seu uniforme estavam à espera; a demora com certeza devia ter sido longa para todos. Dois secretários estavam escrevendo fazendo ranger o papel; um deles voltou a cabeça com ar descontente para o recém-chegado e sem se levantar perguntou-lhe piscando os olhos;— O que deseja? — Queria falar com o senhor advogado.
— Está ocupado — respondeu com severidade o secretário apontando com a caneta os que já estavam à espera; e pôs-se novamente a escrever.
— Não terá um momento para me receber? — perguntou Alexei Alexandrovich.
— O senhor doutor não tem um instante livre; está sempre ocupado, não vê!
— Faça o favor de lhe apresentar o meu bilhete — disse Alexei Alexandrovich com dignidade, vendo que era impossível conservar o incógnito.
O secretário pegou no bilhete, olhou para ele com um ar descontente e saiu.
Alexei Alexandrovich aprovava em princípio a reforma judiciária, mas criticava certos pormenores tanto quanto era capaz de criticar uma instituição sancionada pelo poder supremo; em todas as coisas admitia o erro como um mal inevitável, ao qual se podia em certos casos dar remédio; mas a posição importante criada aos advogados por essa reforma tinha sido sempre objeto da sua reprovação e o acolhimento que lhe estavam fazendo não destruía em nada as suas ideias.
— O senhor doutor vem já! — disse o secretário voltando.
Efetivamente, ao cabo de dois minutos a porta abriu-se o advogado apareceu acompanhado por um velho e magro jurisconsulto. O advogado era um homenzinho calvo, cheio, com uma barba preta tirante para ruiva, uma testa larga e grandes sobrancelhas claras. O fato, desde a gravata e a cadeia double do relógio até à ponta das botas de polimento, era o de um galã. O rosto era inteligente e vulgar, os modos pretensiosos e de mau gosto.
— Queira entrar — disse ele voltando-se para Alexei Alexandrovich e, fazendo-o passar adiante de si, fechou a porta. Chegou um fauteil para junto da secretária cheia de papéis e pediu a Alexei Alexandrovich que se sentasse; e esfregando as mãos uma na outra, umas mãos pequenas e peludas, instalou-se diante da secretária numa posição atenta. Mas mal se sentara uma borboleta voou por cima da mesa e o homenzinho, com uma vivacidade inesperada, agarrou-a no voo; depois retomou logo a sua primeira atitude.
— Antes de lhe explicar o meu caso — disse Alexei Alexandrovich seguindo com olhares de admiração os movimentos do advogado — permita-me que lhe observe que o assunto que aqui me traz deve ficar secreto entre nós. Um impercetível sorriso aflorou aos lábios do advogado.
— Se eu não fosse capaz de guardar um segredo, não seria advogado — disse. — Mas se o deseja, tenha a certeza… Alexei Alexandrovich lançou-lhe um olhar atento e julgou notar que os seus olhos cinzentos cheios de inteligência tinham adivinhado tudo.
— Conhece o meu nome?
— Bem sei quanto os seus serviços são úteis à Rússia! — respondeu o advogado inclinando-se depois de ter apanhado uma segunda borboleta.
Alexei Alexandrovich suspirou; decidiu-se com custo a falar, mas quando começou continuou até ao fim sem hesitações, com a sua voz clara e incisiva, insistindo sobre certas palavras.
— Tenho a desgraça — começou ele — de ser um marido enganado. Queria romper legalmente com um divórcio os laços que me unem a minha mulher e principalmente separar o filho de sua mãe. Os olhos pardos do advogado faziam o possível por se manterem sérios; mas Alexei Alexandrovich não deixou de ver que eles estavam cheios de uma alegria que não provinha só da perspectiva de um bom negócio; era entusiasmo, triunfo, alguma coisa como o brilho que ele já notara nos olhos de sua mulher.
— Quer a minha ajuda para obter o divórcio?
— Exatamente; mas receio abusar da sua atenção, porque vim agora só para o consultar; eu quero manter-me dentro de certos limites e renunciaria ao divórcio se se não pudesse conciliar com as formas que quero manter.
— Oh, o senhor fica sempre perfeitamente livre — respondeu o advogado. O homenzinho, para não ofender o cliente com a alegria que o seu rosto a custo escondia, fixou os olhos nos pés de Alexei Alexandrovich e, embora pelo canto do olho visse uma borboleta voando, por respeito pela situação de momento manteve as mãos em sossego.
— As leis que regulam o divórcio são-me já conhecidas nos seus traços gerais — disse Karenine — mas quereria saber as formas usadas na prática.
— Numa palavra deseja saber por que vias poderá obter um divórcio legal? — disse o advogado entrando com um certo prazer no tom do seu cliente; e, a um sinal afirmativo deste, continuou, lançando de tempos a tempos um olhar furtivo para o rosto de Alexei Alexandrovich, que a comoção cobria de sinais vermelhos.
— O divórcio segundo as nossas leis — e teve um tom desdenhoso ao dizer «nossas leis» — é possível, como o sabe, nos três casos seguintes… Que esperem! — exclamou ele vendo o secretário que entreabria a porta.
No entanto levantou-se e foi-lhe dizer algumas palavras, voltando depois a sentar-se.
— …Nos três casos seguintes: defeito físico de um dos cônjuges, desaparecimento de um deles durante cinco anos — e fazendo esta enumeração, ia dobrando os dedos cabeludos um depois do outro — e finalmente o adultério… — E pronunciou esta palavra com um ar satisfeito.
— Eis o lado teórico; mas eu penso que, fazendo-me a honra de me consultar, é o lado prático que o senhor deseja conhecer. Assim não existindo o caso do defeito físico e da ausência de um dos cônjuges, se o pude compreender bem…?
Alexei Alexandrovich inclinou a cabeça afirmativamente.
— Fica o adultério de um dos esposos e nesse caso uma das partes deve-se reconhecer culpada para com a outra, a não ser que se recorra ao flagrante delito. Este último caso, devo dizer-lhe, encontra-se muito raramente na prática.
O advogado calou-se e olhou o seu cliente com o ar de um armeiro que estivesse explicando a um freguês a forma de usar de duas pistolas de modelo diferente, deixando-lhe a liberdade da escolha. Como Alexei Alexandrovich se conservasse calado, ele continuou:
— O mais simples, o mais razoável é, no meu pensar, reconhecer o adultério por consentimento mútuo. Eu não falaria assim a toda a gente, mas suponho que nos compreendemos.
Alexei Alexandrovich estava tão perturbado que a vantagem desta última combinação que lhe propunha o advogado escapava-lhe completamente, e a admiração estampou-se-lhe no rosto; o homem da lei veio logo em seu auxílio.
— Suponhamos que dois esposos não podem viver juntos; se ambos consentem no divórcio, os pormenores e as formalidades são sem importância. Este meio é o mais simples e o mais seguro. Alexei Alexandrovich compreendeu desta vez, mas os seus sentimentos religiosos opunham-se a esta solução.
— No caso presente esse meio está fora de discussão — disse ele.
— Umas correspondência, podem estabelecer indiretamente o adultério? Essas provas estão em meu poder.
O advogado, apertando as mãos, soltou uma exclamação compadecida e ao mesmo tempo de desdém.
— Peço-lhe que se não esqueça que os negócios desse género são da competência do nosso alto clero — disse ele. — Os nossos arciprestes gostam muito de entrar em certos pormenores — ajuntou com um sorriso de simpatia pelo gosto desses bons padres — e as provas exigem testemunhas. Se me der a honra de me confiar o seu caso, é preciso deixar-me escolher as medidas a tomar. Quem quer os fins, quer os meios.
Alexei Alexandrovich levantou-se muito pálido, enquanto o advogado corria para a porta a responder a uma nova interrupção do secretário. — Diga-lhe que não estamos aqui numa loja! — exclamou ele antes de voltar para o seu lugar; no caminho agarrou uma borboleta, murmurando tristemente:
— Nunca alcanço o meu sossego! Dava-me a honra de estar dizendo…
— Eu lhe mandarei depois dizer qual o partido que escolho — respondeu Alexei Alexandrovich apoiando-se à mesa.
— Visto que posso concluir das suas palavras que o divórcio é possível, ficar-lhe-ia obrigado dizendo-me as suas condições. — Tudo é possível, se o senhor quiser dar-me uma inteira liberdade de ação — disse o advogado iludindo a última pergunta.
— Quando poderei contar com uma comunicação da sua parte? — perguntou ele acompanhando o cliente com os olhos tão brilhantes como o verniz das suas botas.
— Dentro de oito dias. Terá a bondade de então me fazer saber se aceita a questão e em que condições.
— Perfeitamente. O advogado acompanhou o cliente cumprimentando-o respeitosamente e quando ficou só transbordava de alegria; estava tão contente que fez, contrariamente a todos os seus princípios, um desconto a uma senhora muito hábil na arte de negociar. Até esqueceu as borboletas, resolvido a mandar consertar para o inverno seguinte a sua mobília de veludo, como em casa do seu colega Seganine.
Tolstoi, Lev. Ana Karenina (Portuguese Edition) (p. 493/498). Mimética. Edição do Kindle.


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