A Igreja Batista da Lagoinha não é acusada formalmente no caso do Banco Master. As relações se limitam a laços antigos de amizade com Daniel Vorcaro e transferências financeiras para atividades da igreja. O pastor voluntário Fabiano Zettel foi afastado, mas a instituição nega qualquer participação nas fraudes.
Tempo estimado de leitura: 3 minutos e 45 segundos.
A Igreja Batista da Lagoinha, uma das maiores denominações evangélicas do país, com sede em Belo Horizonte e centenas de unidades espalhadas pelo Brasil e exterior, viu seu nome associado ao colapso do Banco Master, considerado pela Polícia Federal e pelo Ministério da Fazenda a maior fraude financeira da história recente do sistema bancário brasileiro. O caso, que envolveu liquidação da instituição pelo Banco Central em novembro de 2025, prisões e investigações sobre lavagem de dinheiro, fraudes em CDBs irreais e descontos irregulares em benefícios do INSS, expôs laços familiares e financeiros antigos entre a família Valadão, que lidera a igreja, e o banqueiro Daniel Vorcaro. Fontes primárias, como notas oficiais da igreja divulgadas por meio das redes sociais do pastor André Valadão, e reportagens de veículos como O Globo, Folha de S.Paulo, G1 e Agência Pública, confirmam as conexões pessoais, enquanto movimentações atípicas detectadas pelo Coaf e pela PF geraram questionamentos. Comparadas às narrativas circuladas em redes sociais, as informações mostram que os fatos se limitam a relações de longa data e transferências sob investigação, sem provas de envolvimento direto da denominação como instituição.
Tudo começou há décadas, quando Henrique Vorcaro, pai de Daniel, se converteu e passou a frequentar a Lagoinha, então sob comando do pastor Márcio Valadão. Grato pela orientação espiritual, Henrique fez doações significativas à igreja e, segundo relatos antigos da revista Piauí confirmados por veículos como O Globo, ajudou o jovem André Valadão a quitar prestações de uma BMW. Daniel Vorcaro ganhou espaço na Rede Super, emissora ligada à Lagoinha, apresentando um programa de música gospel. A amizade entre as famílias se consolidou: em 2018, a irmã de Daniel, Natália Vorcaro Zettel, casou-se com o empresário Fabiano Zettel, que anos depois se tornou pastor voluntário na igreja. Em 2022, André Valadão assumiu a liderança da Lagoinha Global, e o Coaf registrou uma transferência de cerca de R$ 3,9 milhões do Banco Master para a Amando Vidas, empresa de produção musical ligada ao pastor – valor que André nega conhecer, conforme declaração pública. No mesmo período, Zettel, já atuando na igreja, idealizou e inaugurou a unidade Belvedere, um templo amplo em bairro nobre de Belo Horizonte.
Em 2024, a Lagoinha lançou a fintech Clava Forte Bank, voltada para pagamentos de igrejas, com André Valadão e a esposa Cassiane à frente. Paralelamente, Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado pela PF como operador financeiro do esquema, realizou 54 transferências que somaram R$ 40,9 milhões para a conta da unidade Belvedere entre 2024 e 2025. O Banco Master, que captava recursos prometendo rendimentos elevados, enfrentava problemas de liquidez. Em novembro de 2025, quando as primeiras notícias do caso surgiram, a igreja afastou Zettel do pastoreio voluntário. No fim de 2025, a Clava Forte saiu do ar, o que André Valadão atribuiu a “manutenção programada” e negou qualquer ligação com o Master, chamando boatos de “mentiras demoníacas” em vídeo nas redes. Em janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação do banco e de empresas do grupo. A Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, levou à prisão preventiva de Vorcaro e, em março de 2026, à detenção temporária de Zettel, acusado de participar de lavagem de dinheiro e de um grupo que intimidava críticos.
Diante das revelações, a unidade Belvedere encerrou atividades por volta de 15 de março de 2026 e apagou suas redes sociais. A Lagoinha Global emitiu nota oficial: afirmou que cada unidade tem autonomia administrativa, que Zettel era voluntário e que não havia vínculo institucional com as fraudes. A igreja conversou com Natália Zettel, que garantiu que os recursos eram para atividades da congregação, sem retorno pessoal ao marido. Fiéis da Lagoinha, em relatos colhidos por Brasil de Fato, expressaram indignação e pediram mais transparência, com frases como “me senti enganada”. Em redes sociais, porém, circularam acusações mais graves: que a igreja teria servido como “lavanderia de dinheiro” ou que líderes como André Valadão e o deputado Nikolas Ferreira usaram jatinhos de Vorcaro em campanhas de 2022. Essas versões, amplificadas em posts e reels, misturam fatos comprovados com especulações políticas sobre proteção via CPMI do INSS, sem respaldo em documentos da PF ou Coaf até o momento.
O escândalo expõe como amizades antigas, nascidas da conversão religiosa e reforçadas por doações, podem se entrelaçar com negócios de alto risco. A causa aparente está no modelo de expansão da Lagoinha, que cresceu como uma rede de unidades autônomas e atraiu empresários convertidos, criando laços que misturam fé, influência e finanças. A igreja nega qualquer participação nas irregularidades e diz estar à disposição das autoridades. Até agora, as investigações focam em Zettel e Vorcaro, sem indiciamento formal da denominação ou de seus principais líderes. O caso deixa lições sobre a necessidade de transparência em instituições que lidam com recursos de milhares de fiéis, enquanto a Lagoinha segue com suas atividades principais, mas sob o peso de perguntas que ainda demandam respostas claras das autoridades e da própria igreja.


Deixe um comentário