O que aconteceu no caso do furto na Unicamp? Em março de 2026, a Polícia Federal apurou o desvio de amostras de vírus da gripe por Soledad Palameta Miller e o marido Michael Edward Miller, donos da startup Agrotrix Biotech incubada na universidade. As amostras foram recuperadas, a pesquisadora ganhou liberdade provisória e não houve risco externo.
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Tudo começou com a trajetória de Soledad Palameta Miller, argentina de 36 anos, formada em biotecnologia pela Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, em 2013, e doutora pela Unicamp em 2019. Ela fez pós-doutorado no mesmo Laboratório de Virologia e Biotecnologia Aplicada do Instituto de Biologia da universidade entre 2022 e 2025 e, desde 2025, coordena o Laboratório de Virologia e Biotecnologia em Alimentos na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA). Seu marido, Michael Edward Miller, veterinário norte-americano naturalizado no Brasil, cursa doutorado em Genética e Biologia Molecular na Unicamp desde 2020. Juntos, eles fundaram em maio de 2025 a Agrotrix Biotech Solutions, startup incubada na Agência de Inovação da própria Unicamp, que oferece serviços de produção de vetores virais e vírus transgênicos para pesquisas científicas, vacinas e terapias gênicas, com anúncios públicos do tipo “envie-nos seu transgene que produzimos seu vírus”.
Em meados de fevereiro de 2026, câmeras de segurança registraram Michael Edward Miller saindo do Laboratório de Virologia do Instituto de Biologia carregando caixas. Naquele período, desapareceram amostras de vírus, entre elas as dos tipos H1N1 e H3N2 causadores da gripe A, guardadas em área de alta contenção biológica (nível NB-3). A própria Unicamp comunicou o sumiço à Polícia Federal, que abriu inquérito. As amostras, que percorreram cerca de 350 metros dentro do campus sem autorização, foram encontradas dias depois em laboratórios da FEA e novamente no Instituto de Biologia – alguns frascos já manipulados e descartados irregularmente em lixeiras.
Em 21 de março, a PF cumpriu mandados de busca na residência do casal. Horas depois, Soledad retornou ao campus e descartou parte do material em um laboratório do Instituto de Biologia, o que ampliou a investigação para fraude processual. Na tarde de 23 de março, ela foi presa em flagrante. No dia seguinte, 24 de março, a Justiça Federal concedeu liberdade provisória com medidas cautelares: pagamento de fiança, proibição de deixar o país e bloqueio de acesso aos laboratórios da Unicamp. O marido continua investigado. A reitoria da Unicamp abriu sindicância interna e informou que colabora plenamente com as autoridades. A PF recuperou todo o material, encaminhou amostras ao Ministério da Agricultura para análise técnica e descartou risco à população ou contaminação externa.
A defesa de Soledad afirma que não houve furto, mas apenas uso de estruturas laboratoriais por falta de espaço próprio, e que o casal atuava dentro de projetos de pesquisa. A PF, porém, apura furto qualificado, fraude processual e transporte irregular de organismos geneticamente modificados. Uma aluna de mestrado também é mencionada em relatos como possível auxiliar no deslocamento do material.
Nas redes sociais, o caso ganhou contornos de conspiração internacional, com posts que ligam o casal à agenda “Uma Só Saúde” (One Health), financiada por órgãos como USAID e Fundação Rockefeller, e sugerem roubo para fins de engenharia genética ou bioweapons. Essas versões circulam amplamente, mas não encontram respaldo nas fontes oficiais nem nos veículos de grande circulação, que tratam o episódio como um desvio interno de amostras para possível uso na startup do casal, sem indícios de remessa ao exterior ou motivação estrangeira além da origem argentina de Soledad e norte-americana de Michael. A empresa Agrotrix opera dentro das regras brasileiras de biossegurança da CTNBio, mas o incidente expõe a fragilidade de controles quando pesquisadores acumulam funções acadêmicas e empresariais no mesmo campus.
O episódio, portanto, revela uma brecha real de segurança em um dos laboratórios mais bem equipados do país, motivada aparentemente pela sobreposição entre pesquisa universitária e atividade comercial do casal. Até o fechamento desta reportagem, a PF e a sindicância interna seguem em andamento, sem conclusão sobre a intenção final do material. O caso serve de alerta para a necessidade de protocolos mais rígidos no manuseio de agentes biológicos, especialmente quando envolvidos interesses privados dentro de instituições públicas.


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