Os epicureus consideravam o mundo um monte de átomos caindo aleatória e caoticamente no espaço; de um modo geral as filosofias gregas espiritualizavam tanto Deus que o isolavam do mundo real. Mas sempre foi uma doutrina cristã aquela que diz que Deus é o Criador, Sustentador e Governador de todas as coisas, inclusive Regente das nações e Dirigente da História.
Agostinho de Hipona escreveu A Cidade de Deus, dentre outras motivações, como consolo para os cristãos de Roma quando esta caiu diante dos bárbaros. Ele afastou o acaso e a fatalidade desse evento histórico, e ensinou aos nossos irmãos daquela época que tudo que então aconteceu o foi pela vontade e controle de Deus.
João Calvino dedica três capítulos de suas Institutas ao tema da Providência Divina, além de publicar um estudo em separado sobre o tema, chamado “Uma defesa da secreta providência de Deus pelo qual Ele executa Seus eternos decretos“. Calvino defende a velha doutrina segundo a qual “Deus de tal forma controla cada acontecimento que nada acontece por acaso”.
O Catecismo de Heidelberg, em suas perguntas 27 e 28, inquire:
“O que queres dizer com providência de Deus?“,
respondendo em seguida:
“O poder total e onipresente de Deus em que, por assim dizer, com sua mão ele sustém e governa os céus, a terra e todas as criaturas, de modo que a erva e a grama, a chuva e a seca, os anos frutíferos e os anos estéreis, a carne e a bebida, a saúde e a enfermidade, as riquezas e a pobreza e sim, todas as outras coisas não acontecem por acaso, mas por sua mão paterna”
“Qual é a vantagem de sabermos que Deus criou todas as coisas e que, mediante sua providência, ainda as sustém?“, e responde em seguida:
“É para que tenhamos paciência na adversidade, gratidão na prosperidade, e para que, em todas as coisas que nos sobrevenham, depositemos em nosso Deus e Pai fiel nossa firme confiança de que nada nos separará de seu amor, visto que todas as criaturas estão de tal maneira em sua mão que sem a vontade divina elas não podem nem mesmo se mexer“
Poderíamos citar vários outros autores cristãos no correr da história, bem como outras confissões de fé e Catecismos, como a pergunta 18 do nosso Catecismo Maior de Westminster. Porém, avancemos no propósito deste texto, que é relacionar os acontecimentos históricos que estamos vivendo nestes dias com a doutrina do Providência Divina.
Destaque-se que a dor nacional que vivemos não provém apenas da possibilidade de um casuísmo da mais Alta Corte do Brasil para livrar o líder do partido político que nomeou a maior parte de seus integrantes. A dor vem do modo como isso é feito e da consciência nacional das práticas que os juízes desse Tribunal adotam nos últimos anos. São homens e mulheres relativizadores, que desconhecem um conceito de Verdade e mudam o sentido do texto constitucional, conforme as preferências ideológicas, utilizando-se fartamente da erística e suas falácias. O sentimento nacional é de que são juízes falaciosos e enganadores, levados de um lado pro outro por suas paixões e interesses. Por se portarem assim, o sentimento constitucional do brasileiro foi destruído, e o brasileiro não crê nem confia mais na Constituição Federal e considera que vive num país inseguro e sem lei, um lugar onde não dá para programar e organizar a vida.
Qual a providência de Deus nisso? Creio que com isso Deus nos reconduz à antiga verdade de que Jesus é o único bem do cristão. Há uma idolatria do Estado no Brasil: a vida de boa parte dos brasileiros é organizada ao redor dele. Seja em razão de programas governamentais, da busca de empregos públicos, de ter de dedicar recursos que produz e horas de trabalho a estar quites com o Estado… conclui-se que o brasileiro vive para o Estado. E, de repente, vê-se que esta abstração chamada Estado não é santificada; que o seu caráter expansivo é beneficente para os bandidos, aproveitadores e carreiristas; que a sua ‘bondade’ é um forma de trapaça corruptora; que o ‘glamour’ da alta nomenclatura estatal é bem manchada de criminalidade. Penso que a Providência de Deus desnudou o Supremo Tribunal Federal para que fosse destruída a imagem idealizada da magistratura no Brasil, principalmente a dos Tribunais Superiores.
Sem dúvida muitos cristãos trocaram a confiança em Deus na luta pela sobrevivência com exercício da vocação pela idolatria do Estado através da disputa de uma sombra nele. Isto é visível pelo modo como o empreendedor é tratado no Brasil, seja pela burocracia, seja sociedade, inclusive pelos cristãos.
Um segundo propósito de Deus fazer isso que fez com o Supremo Tribunal Brasileiro é restabelecer na igreja brasileira a velha doutrina da mentalidade peregrina do cristão. Às vezes tem-se a impressão que o destino do cristão brasileiro é a aposentadoria, e não o céu. Preparamo-nos mais para nos aposentarmos do que para nos encontrarmos com o nosso Deus. O que mais nos alegra o coração? Saber que vamos nos encontrar com nosso Deus ou a expectativa de receber a carta de concessão de aposentadoria? Há pastores que lutam mais para implantar um Estado de Bem Estar Social do que para anunciar o Reino de Deus. Há outros que acham que o Estado de Bem Estar Social é o Reino de Deus…
Foi o espírito constitucional da Carta Magna de 1988 que despertou essa idolatria no povo; foi ele que, como Mefistófeles do poema de Goethe, criou direitos que não eram direitos e esperanças impossíveis de realizar. Foi o espírito da falsa Constituição Cidadã que possuiu a alma nacional, e como espírito mentiroso, acabou por jogá-la na lama da decepção produzida por Ministros da Suprema Corte indicados conforme seus ritos.
Alimentamos nossas almas com esperanças dos poderes deste mundo; organizamos nossas vidas na expectativa de um paraíso terrestre. Mas Deus, através de Sua providência, expôs à nudez os reinos humanos, seus palácios e tribunais, para que – como cristãos de outras eras – confiemos apenas nEle e tenhamos como verdadeira pátria o céu.

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