A série “Suits – Homens de Terno” aborda a rotina de profissionais de um escritório de advocacia nova iorquino de grande porte. Seus personagens apresentam-se basicamente como sujeitos com histórias solitárias e sem vínculos afetivos que alí encontram o espaço para o crescimento afetivo e emocional e estabelecimento de relações pessoais significativas.
A trama registra os traços calvinistas históricos daquela sociedade, mas agora dissociado de sua nascente transcendente e mística – o corpo doutrinário e a vida prática cristã dos calvinistas da Costa Leste/Nova Inglaterra. Trata-se de uma redução ao natural de todo aquele entendimento sistematizado pelo Pregador de Genebra e posto em prática pelos puritanos norte-americanos.
Como diz Calvino nas Institutas (Livro III, Capítulo X, versão latina) “portanto, para que através de nossa estultícia e temeridade, de cima abaixo, não se misturem todas as coisas, Deus ordenou a cada um seus deveres em gêneros distintos de vida. E para que alguém não ultrapassasse temerariamente seus limites, chamou por vocações a essas modalidades de viver. Daí, para que não sejam levados em volta as cegas por todo curso da vida, a cada um foi atribuida pelo Senhor, como se fosse um posto de serviço, sua forma de viver“, e, um pouco mais adiante “é bastante sabermos que a vocação do Senhor é em tudo o princípio e o fundamento do agir correto, à qual quem não se reportar, jamais se aterá ao caminho reto em suas atividades“.
Mais recentemente, tivemos a Teoria da Soberania das Esferas de Abraham Kuyper, como atualização do calvinismo, segundo a qual a Família, o Estado e a Igreja são esferas soberanas que se tocam e tangenciam, mas não invadem umas às outras. Dooyeweerd acrescenta a essas esferas a Ciência e a Escola. Essas esferas têm o seu fundamento na Criação (o mundo ideal perdido) e permanecem cheias de defeitos e riscos no mundo pós Queda (o mundo real), mas são sustentadas pela Graça de Deus e nelas se antecipam os bens do mundo ideal mediante a obra redentora de Cristo (a proposição que nos leva do mundo real para o mundo ideal). A vocação desempenha-se, na perspectiva calvinista, em cada uma dessas esferas, sempre aquecida pela mística da Redenção.
Em Suits o que vemos é um mundo real que busca redenção pelas experiências no mundo corporativo. Lá as diferenças de personalidade e temperamento levam ao aperfeiçoamento e crescimento pessoal pela necessidade de trabalho comum; forjam-se amizades e até relacionamentos amorosos. Não que isso em si não seja bom e natural; mas, na trama, há como que uma panfletagem de que o mundo corporativo propicia isso. Os fracassos trazidos de experiências anteriores (familiares e religiosas) ali se resolvem. As vocações familiares, religiosas, acadêmicas (científicas) e públicas (de Estado) se realizam no ambiente corporativo.
Parece que a série faz uma ode ao capitalismo de corporações, destacando-o como privilegiado em relação novo capitalismo, de trabalho remoto e descontínuo, não mais exclusivo mas disruptivo e individual.
Richard Sennet – pesquisador da Universidade de Nova Iorque – aponta em seu livro A Corrosão do Caráter que no novo capitalismo a descontinuídade e isolamento do trabalho não permitem ao indivíduo a auto observação nem a construção de relacionamentos contínuos e significativos, invializando, com isso, a construção “de uma vida” no seu sentido mais substancial e pleno. Mas talvez isso não seja bem assim.
A proposta corporativa da trama da série Suits embora traga a marca histórica do calvinismo de vocação no trabalho como um desdobramento da obra de Cristo, efetivamente isso ali não existe mais, porém é uma prática que perdeu a memória de sua origem. Dessa perda de memória, por exemplo, tem-se que o conflito entre sócios em uma aguda crise que afeta a sobrevivência do negócio é resolvida pelo compartilhamento de cigarros de maconha. Nas primeira décadas do século XXI a América trocou o calvinismo por uma mística panteista; e o que resolve as crises de convivência não é mais a Mesa da Comunhão, mas o ‘beck’. Nada a espantar: na últimas décadas do século XX o vigor dos executivos vinha da cocaína. Mas sabemos que os puritanos enfrentaram condições adversas pelo poder do Espírito!
O homem e mulher que hoje estão no mercado também trazem essa influência panteísta. Esse é um problema basicamente religioso. Talvez não haja o apelo à maconha ou à cocaína, mas coachs e programas motivacionais estimulam a prática de atividades – e até dietas – que aumentem a circulação de dopamina e endorfina no corpo, por exemplo. Tudo com vistas a um aumento de produtividade, inclusive com promessas de hiper desempenho. Não que isso não seja correto – mas simplesmente por que sem uma mística (entendendo por mística um sentimento/saber que dê um senso de unidade a todas as esferas da vida sem que elas percam suas respectivas soberanias) ocorrerá o que vemos tanto em Suits como em republiquetas bolivarianas: família, Estado, academia e religião juntos e misturados. Sem transcendência alguma e se sustentando com muletas como a das drogas e da auto-ajuda.

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