BLOG CASTRO MAGALHÃES

Editor: Carlos HB de Castro Magalhães (MTb 0044864/RJ)

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O filme Corações de Ferro (2015, David Ayer) – que é a estória de um esquadrão de blindados que precisa impedir o avanço de tropas alemães enviadas para interromper o suprimento de tropas aliadas – tem um diálogo bíblico entre os personagens de Brad Pitt e Shia LaBeouf. Nele, ao perceberem a importância de sua missão e as consequências mortais dela, ambos desenvolvem um diálogo que inclui I João 2.16: “porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo“.

Martinho Lutero, conforme registrado na edição americana de sua obras (10.429) fala sobre o texto, dizendo que,

“Primeiro, a concupiscência da carne deve ser vencida, e isso é feito mais facilmente. Segundo, e esta é mais difícil, a concupiscência dos olhos, pois ela não pode ser abandonada de uma só vez, como a primeira, e sim de forma gradua. Finalmente, a mais difícil é a soberba da vida. Ela, igualmente, nasce da vitória sobre os vícios. Por isso, embora possa ser abandonada ou mesmo falhar, ela não é vencida, a menos que pereça por completo à sua própria iniquidade. É o tipo mais prejudicial de vício, que coloca a pessoa no limite entre a glória de Deus e a autodestruição.”

Uma boa interpretação de soberba da vida seria “a soberba de uma boa vida”, isto é, o sentimento de que a boa vida que se teve ou tem (não apenas no sentido material) decorre da própria aptidão e habilidade pessoal. Este soberbo tem uma boa vida – construída em boas escolhas práticas – e a atribui à capacidade de responder com ganho às demandas da vida: não comprometimento em determinadas situações; posicionamento ao lado da parte vencedora em outras, por exemplo; autopreservação social, política, econômica ou eclesiástica em certo momento – tudo isso independentemente de critérios morais e compromissos com a Verdade. Enfim, boas decisões que não dão glória a Deus, mas têm aparência disso.

João faz aqui uma transposição (tal qual Paulo fez em Romanos com diversos outros elementos do Evangelho) para a cultura gentílica de um tipo comum do Evangelho: o fariseu. O soberbo de uma boa vida é o correlato, na cultura greco-romana, do fariseu dos hebreus nos Evangelhos.

O apóstolo João sabia do que estava falando. Sua carta de I João, já tardia, está entre aquelas em que os destinatários já não são mais os cristãos não perseguidos; aqui vemos uma orientação espiritual que no seu livro de Apocalipse está cifrada. Em epístolas mais tardias, como esta de João (85-95 d. C.), já não se fala mais de cristãos em categorias econômicas mais abastadas como comerciantes, por exemplo. Isso é reflexo da perseguição bem descrita no seu Apocalipse, em que para comercializar era necessário ter, na mão ou na fronte, a tatuagem de alguma associação comercial que prestasse culto ao Imperador (e no ritual de filiação a essa associação prestar culto a ele, 13.16-17), e conforme maior o sacrifício alcançado oferecido ao Imperador maior a proeminência na entidade comercial, a ponto de ganhar colunas com o próprio nome nos templos de adoração ao Imperador (3.12), sendo certo que o combate às heresias nessa carta de João pretendia imunizar os cristãos contra a prática de adotá-las para conformar a comunidade cristã ao culto ao Imperador, prática denunciada na condenação, pelo próprio Senhor Jesus, a uma pessoa ou tipo de pessoa identificada como Jezabel (2.20), que possivelmente garantia acesso dos membros da igreja cristã à economia imperial mediante a adesão às suas profecias.

Essas pessoas – que transigiam com o seu dever de dar a glória só a Deus – apresentavam-se a si como hábeis para boas decisões: cristãos e comerciantes prósperos, justificando, pelas justificativas de suas heresias (distorções do Evangelho usadas para esse fim), o fato de terem, na prática, traído Cristo; enquanto os demais cristãos, perseguidos por sua fé, muitas vezes se vendiam como escravos para sobreviver – mas não prestando culto ao Imperador. Esses soberbos são o correlato gentio do fariseu dos hebreus.

A expressão usada por João para a palavra soberba é aladzoneia , que significa literalmente fanfarrão, alguém que se vangloria de coisa que não possui. A sua raiz é alê, substantivo feminino que significa andarilho. Enquanto o maccario (termo grego para homem entre 20 e 60 anos apto para a guerra) das bem aventuranças é o que marcha no reto caminho (correspondente evangélico do aser dos hebreus, p. ex. Salmo 128.1 – o que é reto, progride no caminho reto), o alê dos gentios é o andarilho vagabundo que está num caminho que não é seu. É um fanfarrão, contador de vantagens que não são verdadeiras embora aparentem. Suas derivações extremas contemporâneas todos conhecemos: carreiristas, oportunistas, golpistas e mais. Porém existem derivações mais sutis.

No filme (desculpem o spoiler) os personagens aludidos morrem. Entraram coesos em sua missão e não procuraram glória irreal, não transigindo com seu dever visando autopreservação. Uma boa ilustração para a vida cristã.

Corações de Ferro – Trailer


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Uma resposta a “Fanfarrão – a soberba de uma boa vida”

  1. […] no texto “Fanfarrão – a soberba de uma boa vida”, que você pode ler clicando aqui. Reproduzo, abaixo, o […]

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