BLOG CASTRO MAGALHÃES

Editor: Carlos HB de Castro Magalhães (MTb 0044864/RJ)

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Preparei uma lista pessoal de leitura – bem pequena – para preparação devocional de enfrentamento ao sofrimento decorrente da pandemia: confinamento, distância de pessoas amadas, apreensão, medo e luto.

A lista vai do mais teológico para o mais devocional.  A primeira leitura é a do capítulo 24 do livro O Treinamento dos Doze, de A.A. Bruce, já referido aqui no blog. O título do capítulo é “O pai agonizante e os pequeninos”, que é uma interpretação dos textos do Evangelho de João 13.31-35; 14.1-4; 15-21.  Bruce usa a tríade hermenêutica – história, literatura, teologia – para interpretar essas passagens. Isso fica bem claro logo no início da exposição, quando diz que “em suas últimas palavras aos seus, o Salvador empregou dois estilos de fala. Primeiro, falou como um pai que está morrendo se dirige aos seus filhos; e, depois, assumiu um tom mais elevado e falou como um senhor que está morrendo dirigindo-se aos seus servos, amigos e representantes. Palavras de consolo e conselho relativo ao primeiro objetivo, estão nos capítulos treze e quatorze de João; as diretrizes do Senhor para seus futuros apóstolos, estão nos capítulos treze e quatorze“.

Essa citação de A.A. Bruce deixa claro que no trato do sofrimento o nosso Senhor determina não apenas consolação, mas estabelece diretrizes em relação ao mesmo – isto é, Ele assegura um sentido para o sofrimento que Seus discipulos atravessam. Como cristãos, temos esta riqueza em meio ao sofrimento e Deus também nos dá os meios de graça para que dela desfrutemos: não só consolação do sofrimento, mas um sentido que o integra à linha de nossa vida, sem que esta se interrompa mas, ao contrário, progrida e enriqueça espiritualmente usando a experiência da dor.  Quanto ao último aspecto, A.A. Bruce indica que Jesus deixa bem claro que todo sofrimento do cristão é um sofrimento dentro do Corpo dos Cristãos, a Igreja; e tem seu sentido integrado ao sentido da própria Igreja, enquanto comunidade dos cristãos.

A segunda leitura é uma aplicação pastoral da verdade teológica acima exposta. O capítulo 8 do livro Instrumentos nas Mãos do Redentor (pessoas que precisam ser transformadas ajudando pessoas que precisam de transformação), de Paul David Tripp,  tem o titulo de Construíndo Relacionamentos pela Identificação com o Sofrimento. Tripp parte da premissa de que o sofrimento é um fato comum da vida e que não deveríamos nos surpreender com ele mas com o fato de não sofrermos ainda mais. Iniciando a sua aborgadem a partir da soberania de Deus sobre o sofrimento, Seu atributo de bondade, o sentido que o sofrimento tem para o cristão e  razões gerais deste, Tripp – usando Cristo como modelo – aconselha a prática cristã em relação ao sofrimento a partir de alguns elementos. O primeiro é o da identificação – identificar-se com o sofrimento. Tripp destaca que algo que é  usual – nos chamarmos de irmão na igreja! – decorre do próprio fato de Cristo nos chamar de irmãos (Hb 2.10-12), destacando que a essência da nossa irmandade com Cristo e com outras pessoas é o sofrimento. Em Seu sacrifício vicário, Cristo foi aperfeiçoado pelo sofrimento, é o que diz Hebreus. Ele foi aperfeiçoado pelos sofrimentos como um segundo Adão, cem por cento humano que era (sem deixar de ser  cem por cento divino). Este é o nosso padrão, não causal, mas decorrente da justificação em Cristo.

Uma aplicação prática que Tripp nos dá é ver o sofrimento e o respectivo consolo de maneira redentora. O conforto que recebo no meio do sofrimento é para compartilhar com outros.  Quando compartilho o conforto, o faço compartilhando o sofrimento de Cristo. O nosso sofrimento não é nosso, mas de Cristo. E o propósito de nosso sofrimento é fazer brilhar esperança num mundo caído.

Tripp faz recomendações práticas bem interessantes para usarmos quando conversarmos com pessoas em situação de sofrimento (e também no dia a dia de modo geral). Por exemplo, ao contar as nossas histórias de sofrimento pessoal devemos colocar Cristo como centro; nossas narrativas sempre devem ter Deus como o ator principal na trama.  Em decorrência dessa prática, iremos necessariamente quebrar a concepção errada que somos diferentes do outro. Outra recomendação é contar nossa história de sofrimento pessoal sempre de forma concluída – incluíndo a ajuda de Deus. Não esconder lutas e fracassos ao falarmos de nossas vidas tem um bom efeito sobre nós mesmos e nos conduz à identificação com o outro – e do outro conosco.

Uma obra literária que fala sobre o sofrimento do luto é a terceira recomendação de leitura. Trata-se do clássico Anatomia de uma Dor – um luto em observação, de C. S. Lewis.  A primeira recomendação foi mais teológica, a segunda mais pastoral e a terceira é mais cultural. O livro tem fortes tons emocionais, em que Lewis coloca para fora toda a sua indignação com a morte de sua amada. É interessante a leitura nas semanas posteriores à morte de um ente querido, de alguém próximo. Leva da cartarse à reflexão, e da reflexão à lição e ao sentido na dor. Eu, pessoalmente, fui muito ajudado por trechos desse livro após a morte de meu pai.


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