Por Carlos Magalhães – 29 de novembro de 2025
Não há provas documentais ou fontes primárias que comprovem que o atirador do CEFET-RJ, João Antônio Miranda Tello Ramos, foi afastado por “não aceitar ser chefiado por mulheres”. Até 29/11/2025, todas as informações sobre misoginia partem de “fontes internas” anônimas reproduzidas pela imprensa, sem processos administrativos, depoimentos formais ou laudos divulgados. A acusação ganhou força em ambiente acadêmico ideologizado e nas redes sociais antes mesmo do início oficial da investigação.
Menos de 24 horas após o trágico tiroteio que vitimou as servidoras Allane de Souza Pedrotti Matos e Layse Costa Pinheiro no campus Maracanã do CEFET-RJ, uma narrativa já se consolidou nas redes sociais e em parte da imprensa: o atirador João Antônio Miranda Tello Ramos teria sido “um misógino que não aceitava ser chefiado por mulheres”. A acusação, grave, transformou rapidamente o caso em mais um capítulo da guerra cultural brasileira, com hashtags de feminicídio, pedidos de políticas públicas e até generalizações sobre “todos os misóginos”.
O problema é que, até o momento em que este texto é escrito, não existe uma única fonte primária que sustente essa versão.
Não há:
- processo administrativo divulgado;
- depoimento formal de colega ou superior;
- e-mail, áudio ou documento interno tornado público;
- laudo psicológico que mencione misoginia;
- sequer uma nota oficial do CEFET-RJ ou do Ministério da Educação que corrobore a tese.
Tudo o que temos são frases atribuídas a “fontes internas” ou a “apuração inicial da polícia” reproduzidas por veículos como O Dia, Metrópoles e colunas de fofoca política. Frases quase idênticas, aliás, que surgem simultaneamente em dezenas de portais, como se um único release tivesse sido distribuído por agências de clipping.
Quem são essas “fontes internas”? Não sabemos. Podem ser colegas de trabalho, podem ser adversários ideológicos do atirador, podem ser pessoas que ouviram um boato de terceira mão no corredor da direção. Num ambiente acadêmico brasileiro marcadamente ideologizado – onde a totemização da mulher como categoria intocável e a misandria disfarçada de “defesa das minorias” são moeda corrente –, basta uma frase solta para que ela seja imediatamente elevada à categoria de verdade absoluta.
A lógica é conhecida:
- Ocorre um crime hediondo.
- As vítimas são mulheres.
- Logo, o motivo só pode ser misoginia.
- Qualquer nuance (saúde mental grave, histórico de afastamento psiquiátrico, conflitos burocráticos antigos) é secundarizada ou ignorada.
É a mesma lógica que rotulou o assassino de Realengo de “misógino” mesmo após o laudo apontar delírio messiânico. Funciona porque é simples, moralmente confortável e alimenta a máquina de cliques e engajamento das redes militantes.
Repito: até agora não há prova documental de que João Antônio tenha sido afastado por “não aceitar ser chefiado por mulheres”. Há, isso sim, a informação oficial de que ele foi afastado por problemas psiquiátricos e retornou com laudo médico atestando aptidão – laudo este que, aliás, já está sendo questionado por quem quer encontrar um culpado além do próprio atirador.
A pressa em transformar um drama humano complexo numa bandeira ideológica pronta para consumo é, no mínimo, desrespeitosa com as famílias das vítimas e com a própria inteligência do leitor. Allane e Layse merecem luto, investigação séria e justiça. Não merecem ser reduzidas a mártires de uma narrativa que, por enquanto, parece mais interessada em confirmar preconceitos do que em apurar fatos.
Quando (e se) surgirem documentos, depoimentos formais ou provas concretas, deve-se analisá-los em profundidade. Até lá, cautela é o mínimo que se espera de quem lida com informação. O resto é militância vestida de jornalismo.


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