BLOG CASTRO MAGALHÃES

Editor: Carlos HB de Castro Magalhães, Registro Jornalista MTb 0044864/RJ


Antes de compartilhar mentira: o que está documentado e o que é fake news na história de Flávio Bolsonaro, do Rolex e de Kassio Nunes

Tempo de leitura: 4 minutos

Em 29/09/2026, o PlatôBR publicou um dossiê do ex-sócio Alexandre Santini sobre Flávio Bolsonaro. O UOL confirmou o núcleo documental.

Documentado: sociedade na Kopenhagen da Barra; cobrança de cerca de R$ 1,4 milhão em 2023; nota fiscal de 10/02/2022 de um Rolex de R$ 305 mil em nome de Alan Belaciano; mensagens de Santini sobre festas e sobre um suposto contato de Flávio com Kassio Nunes.

Não comprovado: presença de Flávio em cada festa; que o relógio foi presente, e não empréstimo; que houve lobby sobre um processo identificado no STF. O gabinete de Kassio disse que atender parlamentares é praxe.

A briga entre ex-sócios gerou o material. Nas redes, o caso virou o slogan “orgia + Rolex + Kassio”, que mistura documento, alegação e rumor.

A notícia que circula nas redes sociais nesta terça-feira, 29 de setembro de 2026, não nasceu de um post anônimo. Saiu de uma reportagem do site PlatôBR, assinada pelo jornalista Rodrigo Rangel, com base em mensagens, fotos, áudios e documentos guardados por Alexandre Ferreira Dias Santini, antigo sócio e amigo de Flávio Bolsonaro. O UOL republicou o núcleo documental no mesmo dia. O que se espalhou nas redes como “orgia, Rolex de 300 mil e lobby com Kassio” é um resumo condensado — e, em vários posts, inflado — desse material.

A origem remonta à sociedade na Bolsotini Chocolates e Café Ltda., franquia da Kopenhagen na Barra da Tijuca. O negócio foi alvo das investigações das rachadinhas no gabinete de Flávio no Rio; a loja fechou e a amizade se desfez por dinheiro. Santini passou a cobrar o que chamava de acerto de contas. Em 28 de setembro de 2023 notificou extrajudicialmente o gabinete do senador em cerca de R$ 1,4 milhão. Depois recorreu à Justiça pedindo cerca de R$ 1,47 milhão. Flávio negou a dívida e, em declarações anteriores, tratou as cobranças como recados de um “ex-sócio e ex-amigo” a quem não queria “dar linha”, e as acusações como “infundadas”.

No acervo que Santini guardou há três blocos distintos, e eles não têm o mesmo peso.

O primeiro é o das festas. O PlatôBR reproduz mensagens em que Santini combina com uma agenciadora no Rio um encontro “igual ao do Grand Hyatt”, pede sigilo “nessa época de eleição” e se refere a Flávio como “meu filho”. Há foto da varanda do hotel, segundo o site, no começo de 2022. A reportagem afirma que Santini mostrou parte desse material a Fernanda Bolsonaro e que o casamento atravessou uma crise; depois Flávio teria escrito ao ex-sócio que se arrependia de “muitas escolhas erradas” e que não voltaria a errar com a família. O texto da mensagem, pelo que o UOL descreve, não nomeia os episódios. O que está documentado é Santini organizando encontros e dizendo que Flávio participava. Não há, nas versões da imprensa de grande circulação, prova independente de cada festa nem identificação das mulheres. Chamar o conjunto de “orgia comprovada” é o salto que as redes deram sobre o que o material mostra.

O segundo bloco é o do relógio. Em 10 de fevereiro de 2022, uma nota fiscal em nome do advogado Alan Belaciano registra a compra, em Brasília, de um Rolex Submariner Date de ouro branco por R$ 305 mil. O PlatôBR afirma que mensagens guardadas por Santini indicam que o destinatário era Flávio. Belaciano também aparece ligado a mais de R$ 90 mil em equipamentos de academia na casa do senador em Brasília — episódio já público. Naquela ocasião, Flávio disse que um amigo havia feito a compra como “empréstimo pessoal” que estava sendo quitado. Até o fim da tarde desta terça, o UOL informava que Flávio, Santini e Belaciano ainda não haviam respondido especificamente sobre o Rolex. A nota fiscal da compra existe; o destino do relógio como presente ao senador depende das conversas atribuídas a Santini.

O terceiro bloco é o que cita Kassio Nunes Marques. No fim de 2023, no auge da briga por dinheiro, Santini escreveu a Flávio que sabia que o senador havia falado “diretamente com o Kassio Nunes” e intermediado um cliente com processo no gabinete do ministro. O caso seria acompanhado por Belaciano; haveria jantar com o chefe de gabinete. Depois da mensagem, Flávio marcou reunião no mesmo dia. Mais tarde Santini disse a interlocutores que a disputa estava “encerrada”. O UOL registra, com clareza, que a reportagem não identifica o cliente nem o processo e não apresenta comprovação independente de que a intermediação ocorreu. O gabinete de Kassio respondeu que o ministro “atende parlamentares de todos os partidos” e que isso é praxe nos gabinetes do Supremo. Nas redes, a mensagem de Santini virou “combinação de sentença”. Isso não está nos documentos publicados.

A causa imediata do vazamento é a ruptura comercial e pessoal entre os dois. Santini usou o que guardou como pressão; parte do material já havia circulado em 2023. A publicação agora ocorre na reta da campanha presidencial de 2026, com Flávio candidato do PL. Isso explica a velocidade com que o resumo “orgia + Rolex + Kassio” virou slogan, misturado a outras histórias recentes sobre Kassio e o banco Master, que são fatos distintos e não constam desta reportagem.

O que está assentado até aqui: houve sociedade na chocolateria; houve briga de R$ 1,4 milhão; existe nota fiscal de um Rolex de R$ 305 mil em nome de Belaciano; existem mensagens de Santini combinando festas e cobrando Flávio; existe uma mensagem em que Santini afirma que Flávio falou com Kassio; o gabinete do ministro não nega atendimento a parlamentares e não confirma o caso concreto. O que permanece alegação de uma das partes, sem confirmação independente: que cada festa teve a presença do senador, que o relógio foi presente e não empréstimo, e que houve lobby efetivo sobre um processo no STF. Sem essas confirmações, o restante é rumor construído sobre um dossiê de ex-sócio em disputa.


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