BLOG CASTRO MAGALHÃES

Editor: Carlos HB de Castro Magalhães, Registro Jornalista MTb 0044864/RJ


O debate que não houve: o que a noite de quinta deixou registrado sobre Globo, cortes, candidatos e redes

O debate presidencial da TV Globo, marcado para a noite de quinta-feira, 1º de outubro, a três dias do primeiro turno, foi cancelado cerca de uma hora antes do início. A emissora atribuiu a suspensão a decisões do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal que alteraram regras já acordadas com as campanhas. Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro não se enfrentaram na televisão aberta. A disputa de atenção foi para a internet. O número de espectadores da entrevista de Lula ao Flow passou a ser contestado nas redes com a acusação, ainda não comprovada, de que parte da audiência seria de robô. Nas mesmas redes, a culpa pelo cancelamento se dividiu por campo. Nos posts de maior alcance, a versão favorável a Flávio recebeu mais curtidas.

Na terça-feira, 29 de setembro, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, alterou o critério de contagem de parlamentares usado para convites obrigatórios e reconheceu a Romeu Zema, do Novo, o direito de participar. A regra legal e a portaria do TSE exigem convite a candidatos de partidos com pelo menos cinco parlamentares no Congresso. Por esse critério, a Globo havia convidado Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Lula (PT).

Na quarta-feira, 30, a campanha de Lula comunicou que o presidente não iria ao debate e concederia entrevista ao Flow Podcast no mesmo horário. A ata do encontro, assinada por todos os partidos, inclusive o PT, previa púlpito vazio, com placa de identificação, e trinta segundos para que os presentes formulassem a pergunta que fariam ao ausente.

Na quinta, a ministra do TSE Estela Aranha — Stella Aranha na nota da Globo — atendeu a pedido da coligação petista e invalidou esse item. Proibiu o púlpito com o nome de Lula e as perguntas dirigidas a ele. Por volta das 19h24, Flávio publicou no X que não iria “em função da censura imposta ao evento pelo TSE” e que “a imprensa tem que ser livre e as eleições limpas”. O post passou de 1,9 milhão de visualizações e de 55 mil curtidas. Minutos depois, o ministro Gilmar Mendes, do STF, em pedido do Solidariedade, determinou a inclusão de Renan Santos (Missão), cujo partido tem um parlamentar no Congresso. A CNN registrou que pedidos anteriores de Renan haviam sido rejeitados.

Caiado, Cury e Zema já estavam nos estúdios no Rio quando a Globo anunciou o cancelamento, por volta das 20h30. Renan seguia para o local. A nota da emissora, reproduzida pelo G1 e pela Veja, diz que as notificações interferem nas regras previamente acordadas e que decisões tomadas momentos antes causam insegurança jurídica e representam interferência indevida na liberdade de organizar debates. No horário, foi ao ar um capítulo da novela Quem Ama Cuida. Pedro Bassan entrou na programação para explicar a decisão.

No Flow, Lula disse que os debates da Globo são infrutíferos, que o pessoal começa a fazer gracinha e que o eleitor já o conhece. O contador do YouTube, reproduzido por Veja, Notícias da TV e UOL, marcou pico de cerca de 1,64 milhão a 1,7 milhão de espectadores simultâneos no canal do podcast e média próxima de 1,5 milhão. Às 22h40, a Veja anotou 1.640.193 no Flow e mais 153.683 no canal do presidente. A live de Flávio ficou abaixo: 534 mil no mesmo recorte e ápice de cerca de 945 mil, segundo a campanha, sem o milhão que ele pediu aos apoiadores. A Folha informou nesta sexta que o vídeo de Lula já passava de 10 milhões de visualizações acumuladas, e o de Flávio, de 5 milhões. Nenhum desses veículos auditou a origem do público.

A acusação de robô surgiu no X na madrugada. Posts afirmaram que a transmissão contava com espectadores de Turquia, Índia, Bangladesh, Venezuela e Indonésia, falaram em fazendinha de cliques e mostraram gráficos com saltos de dezenas de milhares de visualizações em segundos, um deles citando mais de 750 mil em sete minutos. Respostas à nota da Folha perguntaram quantos dos 10 milhões seriam bots da Índia. Não há, nessas publicações, relatório do YouTube nem auditoria do canal. O indício é o print. O YouTube não divulga em tempo real a composição por país de uma live, e o contador pode incluir aba aberta e tráfego que a plataforma só filtra depois. Até o meio-dia desta sexta, a tese de audiência inflada permanecia acusação de rede social, sem confirmação da imprensa, do podcast ou da plataforma.

A culpa, nas redes, também se partiu. À direita, o fio dominante é o de Flávio: censura do TSE a serviço de Lula, com Estela Aranha e Gilmar Mendes como peças da noite. Caiado escreveu que o Judiciário se tornou o trágico protagonista da eleição. Zema disse ver a Justiça a serviço do presidente. Uma análise da CNN sobre decisões pró-Lula passou de 13 mil curtidas. Um vídeo de jovens pedindo foto com Flávio depois do cancelamento passou de 12 mil. Do outro lado, o post mais direto é o de Renan Santos, com cerca de 4,3 mil curtidas: o debate teria sido armado como palco para Flávio, ele teria fugido quando o nome do Missão entrou, e a Globo teria cancelado. Renan lembrou que, na Band, houve púlpito vazio de Lula e o programa ocorreu. Um vídeo de eleitores à espera na porta da emissora, informando o cancelamento de última hora, chegou a 6,5 mil curtidas. Publicações que chamam a narrativa de censura de inventada ficaram na casa das centenas.

Curtida não é pesquisa. Mede mobilização de quem já segue a conta. Nesse recorte, a fala de Flávio sozinha supera a soma dos posts contrários de maior tração. O volume não sai de um abaixo-assinado espontâneo. Sai do perfil do candidato e de páginas que repetem a frase que ele publicou. A imprensa registra as falas, não uma apuração de rede. Folha, CNN e O Tempo publicaram Caiado, Zema e Cury atribuindo o episódio a Lula e às cortes, sem criticar a desistência de Flávio. O Tempo registrou Renan culpando os dois ausentes e perguntando por que a Globo não manteve o debate com quem já estava no estúdio.

Não há pesquisa desta sexta que meça efeito em intenção de voto. O que se observa é deslocamento de palco. Os dois líderes saíram do confronto televisivo para canais próprios. Quem estava no estúdio ficou sem o último espaço nacional antes do domingo. A causa imediata foi a soma de ausência anunciada, desistência de última hora e liminares que mudaram o formato horas antes. A causa de fundo, escrita pela própria Globo e comentada por juristas ouvidos pelo Globo, é a alteração de regras pactuadas por decisão individual de ministro, com o STF revendo entendimento do TSE sobre quem deve ser convidado.

O ordenamento prevê convite obrigatório por critério de representação parlamentar e deixa à emissora a organização do debate, dentro da ata assinada pelos partidos. Na noite de quinta, esse desenho foi reescrito por duas notificações, uma do TSE e outra do STF, mais a decisão anterior que incluiu Zema. O efeito institucional mensurável não é uma mudança de lei. É a exposição de que regra de debate pode ser suspensa na véspera, e de que a emissora preferiu não transmitir a manter o formato que havia anunciado.

O primeiro turno chega sem o confronto televisionado entre os dois primeiros colocados. Ficam a nota da Globo, as liminares, as desistências e o contador do YouTube. Fica em aberto se o eleitor tratará a noite como falha de candidato, interferência de tribunal ou troca de palco, e se o pico do Flow resistirá à acusação, ainda não comprovada, de que parte daquele público não estava do outro lado da tela. Quem é o maior culpado, nas redes, depende de qual das três decisões o perfil escolhe como a que derrubou o programa: a ausência de Lula, a desistência de Flávio ou o cancelamento da Globo.


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